Belo Horizonte não merece!
Este espaço tem o poder de diminuir minha frustração por não poder expor ao vivo, no rádio e na TV, da minha tristeza com a tragédia que é a campanha neste segundo vez para a Prefeitura de Belo Horizonte. Impedido pela legislação eleitoral, estapafúrdia, grotesca e antidemocrática – por impedir que profissionais da mídia eletrônica se posicionem em relação aos candidatos exatamente às vésperas do pleito – sinto-me em dívida com a cidade que me abraçou, me viu crescer, me ajudou a ter serviço, amigos, família, vida digna. A capital de todos os mineiros vai se desintegrando aos poucos, sofre com administrações incapazes e o que vem por aí extremidade o desespero.
Belo Horizonte está se tornando a cidade proibida. Se chove, você não deve transpor de mansão, mas, se não tiver outro jeito, fique circunspecto às placas e não se aproxime das áreas baixas, sob pena de morrer afogado; se morreu um parente, programe o velório para as 7 da manhã seguinte, sob pena de ser assaltado durante a noite, enquanto chora o ente querido; se quer evitar apuros, tenha sempre moeda vivo no bolso, pois, depois das 8 da noite – quando é importante subsistir caixa eletrônico – você não deve procurar as máquinas 24 horas porque poderá ser assaltado; a cidade tem de 100 parques, porém, convém evita-los, a maioria tem problemas sérios de conservação e segurança e o que é chamado de ecológico tem carrapato, que transmite a maculosa e mata; por falar nisso, o nosso patrimônio cultural da humanidade continua a selva das capivaras, dos jacarés, de eventos inapropriados e palco do faz-de-contas das autoridades; a luta de taxi x uber não teve solução; sequer a polêmica antiga, entre os taxistas de Confins e os de Belo Horizonte foi resolvida, assim, se você chega no nosso aeroporto internacional e a quer tomar o veículo credenciado pela empresa, não pode... Enfim, em Belo Horizonte os relacionamentos estão cada vez esgarçados, os vizinhos cada vez distantes e, quando um político quer romper, ainda vai aporrinhar os comerciantes do Mercado Central, último reduto da felicidade na antiga Curral Del Rey.
S pior, meus amigos, é que a campanha não nos deixa otimistas em relação ao horizonte. Os dois candidatos não nos convencem porque não têm propostas, na verdade não puderam explicitá-las... Temos um festival de baixarias no rádio e na TV... Vamos completar votando no Seu Geraldo, aquele que segundo um o outro não pagou, mas, segundo o outro, foi comprado pelo um. Consigo compreender a indisposição de muitos em votar no afilhado de Aécio Neves – também estou cansado do príncipe. S problema é o diálogo que tem ouvido com muita insistência. Um sufragista pergunta o outro porquê pode votar em alguém com tantas denúncias, tantos processos e o outro responde coisa do tipo “contratempo, se der falso, a gente tira...” S impeachment da Dilma parece ter isento as pessoas da escolha consciente.
Sinto que temos duas opções tristes. E percebo que a maioria vai permanecer com a arriscada. Não vou votar em branco, nem anular e muito menos bandear para o lado que vai vencer só para não perder. Me dá uma saudade danada do brasílico que admirei – Darcy Ribeiro. E das frases maravilhosas que disse, a profunda me consola nas horas de angústia:
“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.
