Até que a intolerância nos separe

 

Na saúde, na doença, no estádio... Foto do jornal "O Tempo", BH, sem crédito do autor

Na saúde, na doença, no estádio… Foto do jornal “O Tempo”, BH, sem crédito do autor

Juntos e misturados. Sem essa de separados no campo de futebol.

Você torce por um time, seu rapaz por outro. Você ama mesmo o futebol e faz questão de ir ao estádio com a camisa do seu clube querido.

Com toda razão amorosa possível, vocês querem ficar juntos nas arquibancadas, mesmo você, moça, com a camisa do seu time –como era antes da violência tomar conta, é que os jovens não sabem disso.

Foi o que aconteceu neste domingo com o casal Andressa Barbosa, 26 anos, atleticana, e Daniel Milla, 29, cruzeirense. Galo e raposa juntinhos na torcida azul.

Uma atitude revolucionária nos costumes, além de corajosa, que ajuda a minar o ódio e enfraquecer os intolerantes filiados a qualquer clubismo.

Por que não posso ir como minha namorada ou meu namorado ver um jogo juntos?

Seja no Mineirão, como neste caso, no Brinco de Ouro da Princesa, no Romeirão (eu Icasa; ela Guarani) ou na Baixada Melancólica –o estádio de Santa Maria(RS) que tem o apelido genial de todos, por ficar perto de um cemitério.

Por que não?, como perguntaria um sem lenço e sem documento.

Não há lei que proíba nem passado que condene. Esses moços, pobres moços, precisam saber que isso era bem possível e a graça da geral do Maraca, por exemplo.

Seria lindo se a gente reaprendesse essa lição de respeito que era dada a todo domingo no “país dos banguelas” dos velhos estádios brasileiros.

O Thales Amorim, de BH, me deu o toque no twitter sobre o acontecimento das Gerais. Fui ler a matéria do repórter Guilherme Guimarães, no site do jornal “O Tempo”. E não é, rapaz, que apenas um solitário “babaca”-como foi chamado pelos próprios torcedores do Cruzeiro- xingou, deu chilique e piti com a presença da atleticana!

Coisa linda que o namorado segurou firme a onda, recriminou o babaca e contou com apoio da torcida. Coisa linda que um casal possa ver um jogo no estádio independentemente das cores de cada um no futiba.

A garota ainda disse à reportagem que não seria louca de gritar nos gols do Galo, que seguraria a onda na buena.

Foi um avanço. Um gesto além do simbólico. Daqui a pouco ela vai poder sim vibrar, como estivesse em casa com o destemido cruzeirense. Quando o mando for do Galo, quem sabe ele também não encara a adversidade. Ela ficou com esse crédito, foi bravíssima, que mulher extraordinária.

Como ando otimista!, uma verdadeira Pollyana, na fase moça. Quase um Cândido de Voltaire!

Sim, bem sei que o mundo não é lá essas belezas, mas a humanidade está evoluindo. Nessa de torcer junto com o amorzinho quem sabe a gente logo alcance o começo dos anos 1980. Eu acredito, eu aprendi na geral dos estádios com gente de todas as cores, todos os times, todas as classes.

Pois é, tão incrível, para os tempos de hoje, que fico até pensando: será que não era uma pegadinha publicitária? Deus tomara que não. Quero acreditar. Eu tenho fé.

Boa semana a todos.

Fonte: Xico Sá