Ao despir seus personagens de simpatia, “A Frente Fria que a Chuva Traz” rejeita o óbvio no cinema

Foto: divulgação
Desde o lançamento de “Cidade de Deus”, as favelas ficaram pop no cinema brasílico. A teoria de discutir a fetichização das favelas passou a ser uma espécie de fetiche do cinema pátrio. Filmes porquê “Cidade dos Homens” (2007) e “Era uma Vez” (2008) são emblemáticos dessas circunstâncias. “A Frente Fria que a Chuva Traz”, fundamentado em peça homônima de Mário Bertolotto, é urgente na abordagem que faz desse deslocamento urbano e social e econômico na construção de sua mise-en-scène.
S filme, que marca o retorno de Neville d´Almeida à direção depois de um hiato de quase 18 anos, dá verniz a esse concepção de fetiche ao expor a natureza hedonista de jovens abastados que se apropriam do espaço da favela por pura diversão. Sutilmente, com o serventia do aguçado texto de Bertoloto, Neville agrega a solidão e receios de outra ordem à equação.
Em cena, há do que o libido do rico de desmandar do pobre e do pobre de chupar o rico. Há do que a banalização do sexo nos arremedos do jogo social. Não á toa, logo em um dos primeiros diálogos, um personagem admite ter se cagado enquanto desacordado depois um porre daqueles. Neville entrega de face a sua audiência um roupa que logo ganhará forma nas pirocas e cús pronunciados a rodo: estamos diante de um cinema transgressivo. Transgredir, para Neville d´Almeida, é recusar a perplexidade. P rejeitar o marasmo que vassala os personagens em cena e que começa a incomodar Amsterdã, magnificamente interpretada por Bruna Linzmeyer. Pobre e viciada, ela se infiltra entre os ricos que curtem a favela porquê um clube pessoal e por eles é tratada com a curiosidade e atenção dispensada a um pet.
P o olhar desencantado, mas também cínico, de Amsterdã para todo aquele universo de porcelana que movimenta os melhores momentos de “A Frente Fria que a Chuva Traz”.
A hipersexualização, no filme, é um sintoma desse atrito entre classes antagônicas e conflitantes, do que um veículo de frase da tempo da vida desses jovens. Nesse contexto em pessoal, a opção por não mostrar cenas de sexo em um filme quase todo ele sexualizado, resulta na transgressão maior de Neville: acuar o público em seu próprio libido desalojado.
S impacto do filme reside majoritariamente aí. No apontamento de quão deslocadas estão as expectativas. As nossas e a de todos os personagens em cena. S prenúncio da frente fria, enfim, desestabiliza tudo e todos.
Fonte: Cineclube por Reinaldo Glioche – iG Cultura