Alexandra Loras: ‘P preciso educar racistas com empatia e paixão’

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Alexandra Loras nasceu na periferia de Paris. Filha de mãe francesa e pai gambiano, é a única negra entre cinco irmãos. Descobriu que tinha a cor da pele dissemelhante das pessoas ao volta ainda no jardim de puerícia, quando uma amiguinha boa de esboço fez um retrato seu usando exclusivamente lápis marrom. Levou um susto.

A surpresa inicial com a diferença se tornou agressividade à medida que crescia sendo rejeitada pelos meninos na escola. Na era, não entendia a influência do racismo em seu dia a dia. Articulada, teve diferentes empregos no final da mocidade. Foi babá na Alemanha, nos EUA e na Inglaterra, além de webdesigner e professora de gálico.

Nessa trajetória de exceções, Alexandra foi também a única entre os irmãos a estudar na prestigiada IEP (P’École Livre de Sciences Politiques), de Paris, instituição onde se forma a escol política da França. Após se graduar em jornalismo, chegou a ser apresentadora de TV. Nesse meio tempo, conheceu e se casou com Damien, diplomata de família aristocrática.

Mudou-se para São Paulo em 2012 quando o marido tornou-se cônsul francesismo no Brasil. Atenta às questões raciais desde os tempos de solteira, a logo consulesa se deu conta de que por cá o peso do racismo era maior do que em qualquer outro lugar que havia pisado.

Passou logo a atuar porquê ativista no País, propondo a líderes empresariais discussões sobre multiplicidade dentro das corporações. Em setembro, Damien Loras deixou o incumbência, mas a família decidiu permanecer, para que Alexandra possa seguir com seus projetos de luta contra a discriminação racial por cá.

Um curso de pós-graduação e um livro sobre os grandes personalidades negras da história mundial estão entre as próximas realizações da ativista que também é fundadora do Fórum Protagonismo Feminino.

Dias antes de deixar a residência consular da França em São Paulo, Alexandra recebeu o HuffPost Brasil para um bate-papo sobre identidade negra e o racismo no Brasil. Em pouco de uma hora de conversa, a ativista oferece dados, concatena raciocínios e insights que acabam provando por A B seu ponto de vista — o de que o Brasil é um país extremamente racista, distante da famigerada teoria de democracia racial. Os principais pontos desta conversa estão elencados a seguir:

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Ativismo no Brasil

Fiquei um bom tempo na sombra de Damien acompanhando o acompanhando em eventos. Fui, inclusive, presidente das consulesas de São Paulo. Até que um dia ele me perguntou: “Por que você não vai trabalhar?”. Eu já havia pretérito os dois primeiros anos do Rafael [fruto do par, hoje com 5 anos] junto com ele em mansão, logo decidi me movimentar. Professoras e diretoras de escolas públicas me chamavam, dizendo: “Você poderia vir fazer uma visitante às nossas crianças? Porque eles não têm uma referência de pessoas negras na escol”. Fiquei empolgada com as propostas, mas ao mesmo tempo não queria ir até eles somente para tirar selfies e fazer porquê a Lady Di: “Ah, sou muito muito-sucedida. Tadinhos deles, vamos posar para uma foto”. Queria mostrar para essas crianças o que me ajudou a resgatar a autoestima. E isso é um trabalho quotidiano, porque você está cá falando comigo sobre essas coisas e as lágrimas já começam a brotar. Comecei logo a fazer palestras. A primeira foi horroroso. Falei sobre os zoológicos humanos, sobre escravidão e percebi aqueles jovens se fechando. Eu precisava transpor daquele caos. Comecei logo a falar sobre as grandes figuras negras: o inventor da geladeira, do marca-passo, da antena parabólica, falei de Teodoro Sampaio, André Rebouças e Machado de Assis. E aí vi uma luz brilhando nos olhos deles. Ao final, abracei todos e muitas crianças choravam. Foi uma coisa muito visceral. Naquela ocasião caiu minha ficha: “Achei minha missão”. Durante 20 anos, eu passei pedindo para o universo, para Deus, que me ajudasse a descobrir minha missão. Eu fui web designer, jornalista, professora de gálico, fui babá na Alemanha, na Inglaterra, nos EUA, em um sistema que me permitia viajar gratuitamente e aprender outros idiomas. Fiz muitas coisas. Fiz sete anos de TV e não gostei do meu trabalho um dia sequer. Hoje eu entendo por que tive que passar por todas essas etapas: para ser boa no que estou fazendo hoje.


Invisível na residência consular

Quando os jornalistas se interessaram por mim, uma consulesa da França, negra, os assuntos abordados eram glamour, tendência, vinho, champanhe, vinho, gastronomia francesa e coisas do tipo. Mas sempre consegui colocar questões de militância nas conversas. Compartilhava com eles uma das coisas que me deixavam chocada. Durantes os eventos na residência consular, o protocolo pede que a consulesa fique na porta recepcionando os convidados. Cerca de 6 milénio pessoas passam por ano pela mansão consular. E em muitas vezes eu era ignorada por brasileiros, que passavam na minha frente, sem me cumprimentar, achando que eu era funcionária da morada. Ou falavam: “Moça, onde eu posso colocar esse casaco?”. Isso era violento, paralisante, mas o que eu podia fazer? Eu era a anfitriã, logo tinha que permanecer feliz, aprazível, ligeiro. Mas isso machuca a gente. Porque sou um ser humano igual a você.


Racismo zero velado

S racismo é muito possante no Brasil do que em qualquer lugar por onde passei. Aqui nós não somos minoria. Pelo contrário, somos uma maioria. Então o problema é muito grave. Em outros lugares do mundo a questão racial pode ser tratada com descaso, por estar relacionada a uma pequena secção da população. Mas cá é totalmente dissemelhante. Há quem diga que o racismo no Brasil é velado. Não é velado de jeito nenhum. Estamos num País que ainda está numa dinâmica de feudalismo que, inclusive, choca os gringos. Uma dinâmica de ricos e pobres, em que os abastados são servidos pelos pobres, sem ninguém questionar. Aliás, ninguém questiona o uniforme branco das babás por cá, que zero tem a ver com higiene. Tem a ver, sim, com o período da escravidão, quando as mulheres escravizadas trabalhavam na lar-grande. Elas tinham que se apresentar sempre de branco, limpinhas, para se diferenciar dos negros escravizados que trabalhavam no campo. Esse uniforme já era uma questão de status. Em nenhum outro país as babás estão vestidas de branco, só no Brasil.


Onde está a Beyoncé brasileira?

S que as pessoas têm que se constatar é que em 1830 muro de 88% da população do Brasil era formado por negros. Houve logo um planejamento para embranquecer a país, pois os governantes tinham pânico da formação de um país, grande e poderoso, por uma população negra que poderia se rebelar e utilizar qualquer tipo de retaliação no horizonte. E funcionou muito muito. Essa teoria de que somos um povo miscigenado é resultado da prática de um bom projecto. Quando falo que o racismo é poderoso no Brasil é porque cá vejo a maioria dos negros com baixa autoestima, o que não se vê nos EUA ou na Inglaterra, por exemplo. Nos EUA, até os anos 60 não podíamos entrar nos mesmos lugares que pessoas brancas. Não podíamos entrar nos mesmos banheiros e restaurantes. Sentar nos mesmos assentos no ônibus. E nos últimos 50 anos de cotas raciais, temos o Barack Obama na presidência; Ursula Burns, CEO da Xerox; Spike Lee, Beyoncé. Então eu pergunto: onde está a Beyoncé brasileira? Onde está o Spike Lee brasiliano? Onde está o candidato preto a presidência do Brasil? Bom, cá temos a Marina Silva, mas ela não levanta essa bandeira. Eu não sei nem se ela se considera negra. E essa é outra questão a ser discutida. Existem tantos negros com o mesmo tom de pele que o meu que não se consideram negros, por acharem essa uma quesito ruim. E tem também a questão do cabelo crespo. Em nenhum outro país eu ouvi coisas porquê "cabelo ruim" ou "cabelo duro". Isso é muito possante cá. E são adjetivos reproduzidos pelos próprios negros cá.


África, início da humanidade

A teoria de que a África é o origem da humanidade é também uma forma de nos inferiorizar. Quando se fala que todos são descendentes da África, querem expressar basicamente que a ordem de evolução é: o macaco, o preto africano e os povos civilizados. Eu paladar de questionar essas teorias. Porque se você olhar a eugenia, era considerada uma ciência exata à idade e se falava: "S ariano, loiro, é um ser humano superior a todas as outras raças". E muitos cientistas aprovavam essa teoria. Até ela ser usada pelos nazistas, ela era tida uma ciência exata. Imagine agora se ele não tivesse sido usada pelos nazistas. Como seria? Mas ainda vivemos resquícios desse cenário. Hoje, no mundo, existem somente 2% de pessoas originalmente loiras. E por que mulheres escolhem pintar o cabelo de loiro? Porque traz privilégios, traz uma narrativa de superioridade.


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Educar pelo muito da flutuação

Por que não vemos uma família de pessoas negras promovendo um mercantil de margarina? Pasta de dente? Fraldas? Quer expressar que não usamos nenhum desses produtos? Por que nunca se viu um preto historicamente nas campanhas de marketing brasileiras? Isso pra mim é um racismo violento. Porque se fala do Brasil lá fora porquê uma democracia racial, uma grande miscigenação, com tudo resolvido. Quando cheguei cá pensei que veria 50% de negros protagonistas nas novelas, em cargos de liderança, nas empresas, nos desenhos animados. E não estão. E fiquei chocada, porque no Brasil as mulheres saem diplomadas que os homens das universidades. E por que exclusivamente 6% das mulheres ocupam postos executivos nas empresas? Porque o ser humano vai sempre propiciar uma pessoa que se parece com ele. Então, um varão branco vai sempre propiciar outro varão branco. Se não educarmos as pessoas para enxergarem o preto porquê igual, a mulher porquê igual, a pessoa com deficiência física porquê igual, vamos permanecer estagnados nessa exigência de poucos com privilégios.


S estereótipo do preto pobre

Acho interessante a gente parar para pensar no quanto o preto é anulado na sociedade brasileira. Não precisa subsistir uma placa "Só para brancos" no shopping Iguatemi para ele não ir almoçar lá. E não é por uma questão financeira também. Os negros consomem 1 trilhão e meio de reais por ano no Brasil. Aqui não existem só negros pobres, o estereótipo da empregada que mora na favela. Estudos recentes mostram que 1% dos brasileiros detêm 60% da riqueza do País. Desse totalidade, 7% são negros. Quando li isso perguntei: onde eles estão?


Talentos desperdiçados

Eu participei de um treinamento de dois dias no YouTube para melhorar a performance do meu conduto e das minhas rede sociais. Lá eu conheci uma quantidade enorme de formadores de opinião negros. E fiquei chocada. São tantas pessoas super hypes, super trends, bons de informação. E percebi que ninguém está falando deles. Existem vários youtubers negros com milhares de seguidores e ninguém está falando deles. Para mim, esse é o horizonte da informação. E me aproximei para trabalhar a questão da autoestima deles, quero que eles aceitem patrocínio de marcas pelo trabalho que têm feito. Porque os youtubers brancos cobram, e cobram custoso pelo que produzem. Vejo que o Brasil está se privando desses talentos, só enxergando os negros porquê coitadinhos, pobres e favelados. S carnaval, por exemplo. A produção do carnaval sai na hora. G super muito-organizada, tudo é impecável, dá manifesto. P uma das maiores festas do mundo. E quem são as pessoas por trás do carnaval? São os negros e pobres, que não acredito que são carentes. A questão é que muitos talentos não foram explorados para se realçar. Não precisamos daquela mulher apertando o botão no elevador. Tampouco daquela pessoa para colocar gasolina no carruagem. Em que país você vê esse tipo de serviço de pessoas? Só no Brasil, país que é a 9ª maior economia do mundo. Não dá para ter 80% da população ganhando R$ 3 milénio reais por morada. Não dá . Vamos ter que mudar a quantidade pela qualidade. E deixar esse povo ter honra econômica para também poder consumir.


Brancos escravizados

G preciso lembrar que o branco também foi escravizado, mas toda a narrativa foi construída de outra forma. Porque houve o feudalismo. Os castelos da França, por exemplo, não foram construídos de negócio com normas trabalhistas, com 35 horas semanais, final de semana de folga. S branco foi escravizado, mas a sua narrativa não conta isso. S que contam é que sempre tiveram honra, sempre foram poderosos. Ao observar toda essa construção narrativa dos livros vejo que podemos narrar o que queremos. Quem vai lá verificar?


"Conversão de racistas"

Acredito que uma pessoa pode deixar de ser racista. Eu já "converti" várias. P preciso educar com empatia e paixão. E cá no Brasil isso também é particularmente provável por conta da formação acadêmica dissemelhante da europeia. Aqui vocês estão muito ligados ao corpo e à conexão humana. Então, ter empatia é muito fácil do que na Europa. Lá, nós não sentimos zero no corpo. S corpo é feito para segurar as cabeças cheias de informação. Desenvolvemos muito as qualidades mentais, deixando o corpo em segundo projecto. Quando vocês beijam ou abraçam alguém estão involuntariamente filtrando a pujança dessa pessoa, verificando se ela está muito. Vocês nem se dão conta do valor disso nas relações humanas.
Fonte: HuffPost Brasil