A linda história de Judith Scott, artista com síndrome de Down que nunca falou uma termo

gemeas

As esculturas de Judith Scott se parecem com casulos gigantes ou ninhos. Elas começam com objetos comuns — uma cadeira, um cabide de arame, um guarda-chuva ou mesmo um carrinho de compras — que são totalmente engolidos por linhas, fios, tecidos e barbantes, freneticamente embrulhados assim porquê uma aranha mumifica sua presa.

As peças resultantes são embrulhos apertados de textura, cor e forma — abstratos, mas, ainda assim, intensamente corporais em sua presença e poder. Elas sugerem uma maneira escolha de ver o mundo, não baseada no saber, mas no tocar, pegar, amar, nutrir e consumir o todo.

Como um pacote embrulhado descontroladamente, as esculturas parecem possuir qualquer sigilo ou significado que não pode ser acessado, exceto por uma virilidade que se irradia; o misterioso conforto de saber que alguma coisa é verdadeiramente ininteligível.

obra de judith scott
Obra de Judith Scott no Museu do Brooklyn, em 2014


Judith e Joyce Scott nasceram em 1º de maio de 1943, em Columbus, no estado de Ohio (EUA). Eram gêmeas fraternas. Judith, no entanto, carregava o cromossomo extra da Síndrome de Down e não conseguia se enviar verbalmente. Apenas tarde, quando Judith tinha murado de 30 anos, foi devidamente diagnosticada porquê surda.

“Não há palavras, mas não precisamos de nenhuma”, Joyce escreveu em seu livro de memórias Entwined ("entrelaçadas", em tradução livre; inédito no Brasil), que conta a desconcertante história de sua vida com Judith. “S que amamos é o conforto de sentarmos com nossos corpos próximos o suficiente para tocar.”

Quando crianças, Joyce e Judith ficavam embrulhadas em seu próprio mundo secreto, pleno de aventuras no quintal e rituais inventados cujas regras nunca eram ditas em voz subida.

Em uma entrevista ao Huffington Post, Joyce explicou que, quando moçoila, não tinha consciência de que Judith tinha uma deficiência mental, ou mesmo que era, de certa forma, dissemelhante.

“Ela era exclusivamente a ‘Judy’ para mim”, disse Joyce. “Não achava que ela fosse dissemelhante de forma alguma. E medida que fui ficando velha, comecei a perceber que as pessoas no bairro a tratavam de maneira dissemelhante. Aquele foi meu primeiro pensamento, que as pessoas a tratavam mal.”

irmãs

Quanto tinha 7 anos, Joyce acordou em uma manhã e Judy não estava lá. Seus pais haviam mandado Judy para uma instituição pública, convencidos de que ela não tinha nenhuma perspectiva de viver uma vida convencional e independente.

Sem o diagnóstico de surdez, considerou-se que a deficiência mental de Judy era muito profunda do que a real — “ineducável”. Com isso, Judy foi levada da própria mansão no meio da noite, e sua família raramente a visitou ou falou com ela novamente. “Eram outros tempos”, contou Joyce, com um suspiro.

Quando Joyce foi visitar a mana, acompanhada dos pais, ficou horrorizada com as condições encontradas na instituição do governo.

“Vi quartos cheios de crianças”, escreveu, “crianças sem sapatos, às vezes, sem roupas. Algumas estão em cadeiras e bancos, mas a maioria está deitada em esteiras no pavimento, algumas viram os olhos, os corpos torcidos e contraídos”.

Em seu livro Entwined, Joyce conta, em vívidos detalhes, suas memórias ao entrar na juvenilidade sem Judy. “Ficava preocupada que Judy pudesse ser completamente esquecida caso eu não me lembrasse dela”, escreve.

“Amar Judy e sentir falta dela pareciam quase a mesma coisa.” Por meio da escrita, Joyce quer se certificar que a dolorosa e marcante história de sua mana não será esquecida, nunca.

Joyce narra os detalhes do início de sua vida com surpreendente precisão, do tipo que faz alguém questionar a capacidade de se descrever a própria história com qualquer tipo de conformidade ou de verossimilhança.

“Apenas tenho uma boa memória”, Joyce explicou por telefone. “Como Judy e eu vivíamos em um mundo tão físico, sensorial, as coisas meio que ficaram gravadas em meu ser de maneira muito possante do que se eu passasse muito tempo com outras crianças.”

exposição no museu do brooklyn
Obra de Judith Scott em exposição no Museu do Brooklyn, em 2014


Quando jovens adultas, as irmãs Scott continuaram tendo vidas separadas. S pai delas faleceu. Joyce ficou prenha quando estava na faculdade e ofereceu a garoto para adoção. Um dia, falando com a assistente social de Judy, Joyce soube que a mana era surda.

“Judy vivia em um mundo sem som”, Joyce escreveu. “E agora eu entendo: o quão importante era nossa conexão, o quão juntas sentíamos cada pedaço de nosso mundo, o quanto ela saboreava seu mundo e parecia respirar em suas cores e formas, o quão cuidadosamente observávamos e delicadamente tocávamos tudo, à medida que sentíamos nosso caminho ao longo de cada dia.”

Não muito depois daquela constatação, Joyce e Judy se reconectaram, permanentemente, quando Joyce se tornou a tutora legítimo de Judy, em 1986.

Agora casada e com dois filhos, Joyce trouxe Judith para sua morada em Berkeley, na Califórnia. Embora Judith nunca houvesse demonstrado muito interesse por arte, Joyce decidiu inscrevê-la em um programa chamado Creative Growth, em Oakland, um espaço para artistas adultos com deficiências de desenvolvimento.

A partir do primeiro minuto que Joyce entrou no lugar, ela pôde perceber a vigor único, apoiada sobre o libido de gerar sem expectativa, titubeação ou ego.

“Tudo irradia sua própria formosura e uma viveza que não procura aprovação, exclusivamente se celebra”, escreveu. Judith experimentou vários meios de informação apresentados pela equipe — traçado, pintura, barro e esculturas em madeira —, mas não demonstrou interesse por nenhum.

entrelaçadas

No entanto, um dia, em 1987, a artista profissional em fibras Sylvia Seventy deu uma palestra na Creative Growth, e Judith começou a tecer. Ela começou colecionando objetos aleatórios, do dia a dia, qualquer coisa que ela pudesse por as mãos.

“Uma vez, ela pegou o argola de matrimónio de uma pessoa, e o contracheque do meu ex-marido, coisas assim”, disse Joyce. S estúdio permitia que ela usasse praticamente qualquer coisa que pudesse cativar — o argola de consórcio, no entanto, foi devolvido ao possuidor.

E, logo, Judith tecia classe sobre classe de barbantes, fios e toalhas de papel, se não houvesse zero disponível, em torno do objeto medial, permitindo que várias estampas surgissem e se dissipassem.

“A primeira peça da obra de Judy que vejo é um pouco em formato de gêmeos atado com solícito carinho”, escreve Joyce. “Eu imediatamente entendo que ela sabe que somos gêmeas, juntas, dois corpos unidos porquê um.

E pranto.” A partir de logo, o gosto de Judith por fazer arte se tornou insaciável. Ela trabalhava oito horas por dia, embrulhando cabos de vassoura, grudar de contas e móveis quebrados em teias de barbante pintado.

Em vez de palavras, Judith se expressava por meio de seus cascos radiantes de coisas e barbantes, instrumentos musicais bizarros do qual som não podia ser ouvido. Além de sua linguagem visual, Judith falava por meio de gestos dramáticos, echarpes coloridas e beijos imitados, que ela generosamente dava em suas esculturas finalizadas, porquê se fossem seus filhos.

Em pouco tempo, Judith passou a ser reconhecida na Creative Growth e em outros lugares por seu talento visionário e personalidade cativante.

Sua obra já foi exposta em museus e galerias ao volta do mundo, porquê em Nova York, no Museu do Brooklyn, Museu de Arte Moderna, Museu de Arte Popular Americana; e em Baltimore, também nos EUA, no Museu de Arte Visionária Americana.

artista visionaria

Em 2005, Judith faleceu aos 61 anos, muito repentinamente. Em uma viagem em um término de semana com Joyce, deitada ao lado da mana na leito, ela simplesmente parou de respirar.

Judith viveu 49 anos além de sua expectativa de vida, e passou praticamente os 18 anos finais fazendo arte, rodeada por entes queridos, defensores e fãs.

Antes de sua viagem final, Judith havia concluído de finalizar o que seria sua última estátua que, estranhamente, era totalmente preta. “Era muito incomum ela gerar uma peça sem cor”, afirmou Joyce.

“Nós, que a conhecíamos, interpretamos a obra porquê um desapego da vida. Acho que ela se relacionava com as cores da mesma maneira que todos nós. Mas quem sabe? Não podíamos perguntar.”

Essa questão está entrelaçada em todo o livro de Joyce, repetida vezes e vezes de formas distintas, mas familiares.

Quem era Judith Scott? Sem palavras, podemos saber um dia? Como uma pessoa que enfrentou uma dor desconhecida sozinha e em silêncio, responde somente, de maneira inimaginável, com liberalidade, originalidade e paixão?

"Judy é um sigilo e quem sou eu é um sigilo, até mesmo para mim”, escreve Joyce.

As esculturas de Scott, por si mesmas, são segredos, impenetráveis pilhas de coisas cujos exteriores deslumbrantes o distraem da veras de que há um pouco debaixo.

Nunca conheceremos os pensamentos que passaram pela mente de Judith durante seus 23 anos sozinha em instituições públicas ou os sentimentos que pulsaram por seu coração quando segurou um carretel de risco pela primeira vez.

Mas podemos ver seus gestos, suas expressões faciais, a maneira pela qual seus braços voariam através do ar para apropriadamente aninhar uma cadeira em seu quinhão de tecido esfarrapado. E, talvez, isso seja o suficiente.

“Ter Judy porquê gêmea foi o presente incrível de minha vida”, disse Joyce. “A única vez que senti um tipo de felicidade absoluta e uma sensação de silêncio foi em sua presença.”

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Joyce atualmente trabalha porquê defensora de pessoas com deficiências e está engajada em montar um estúdio e workshop para artistas com deficiência nas montanhas de Bali, em homenagem à Judith.

“Minha maior esperança é que haverá espaços porquê o Creative Growth em todos os lugares, e pessoas que foram marginalizadas e excluídas teriam a oportunidade de encontrar suas vozes”, afirmou Joyce.


Este cláusula foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.




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Fonte: HuffPost Brasil