A fileira 27 de um Mundial pleno às 10 da noite na volta da Barra
Ontem foi um dia longo. De uma semana longa, de um ano difícil. Ou seja, ontem eu não tava pra sacanagem.
Estava voltando da Barra às nove e muitas da noite (só quem não é da Barra e volta da Barra sabe o impacto dessa frase -- porquê se fosse preciso encruzar dimensões e portais pra voltar pro nosso pedaço daquele condado único e tão propriamente Barra) quando marido avisou: acabou a fralda.
Pensei, tem na bolsa, rola até amanhã. Mas ele já completou logo: também acabou o moca e você sabe o que é manhã sem moca.
Amigos, se tem uma coisa que eu sei é: o que é manhã sem moca. Trevas, negrume e amargura.
Toca pro Mundial, vou na fileira rápida, véspera de feriado, vai ser tranquilo.
Passei por uma penca de bar pleno, pagodeira poderoso, cerveja descendo.
Pra gente dura, feriado antes do quinto dia útil não significa porra nenhuma. Aliás, qualquer dia antes do quinto dia útil é término de mês pra gente dura. Mas a gente vê o povo folgando, o coro comendo e fica num recalque daqueles.
Entro no Mundial, pleno mas suave, zero demais. Acaba a bateria, que merda, enxurrada de coisa pra resolver.
Gente dura resolve coisa pra caralho. P fruto que não dorme enquanto a gente não chega, é compromisso pra marcar, remarcar, lembrar e olvidar.
Pego a fralda, pego o moca, toca pra fileira. Todo mundo com aquela faceta, aquele recalque do mês alheio já ter começado, aquele cansaço do ano querendo findar.
Duas pessoas na minha frente, enxergo uma mulher e o marido com um carrinho pleno. Fila de vinte volumes, a fileira 27 onde estamos. Vai dar merda, pensei.
S marido percebe que estou olhando pro carrinho e pra placa dos 20 volumes. Meu muito, não vai dar pra passar cá. Ah vai sim, foda-se já estou cá e vai passar.
Os companheiros da fileira 27 começam a trocar olhares. Naquele foda-se aquela senhora selou seu direcção.
S maior erro dela foi ignorar o timing, o envolvente. Na fileira 27 não tinha ninguém pra sacanagem. Tava todo mundo num dia longo, numa semana difícil. Tava todo mundo voltando da Barra. Tava todo mundo com o fruto acordado em lar. Tava todo mundo com recalque do mês novo alheio.
Ela começou a botar os produtos na esteira. A caixa avisou: senhora, só passa 20 volumes. Ela riu, olhou pra trás uma vez ignorando todos os presságios: isso é o que vamos ver.
Os olhares dos companheiros da fileira 27 viraram exclamações: ah, vamos ver mesmo. Não vai passar não! Aqui não passa! Chama o gerente!
S marido começou a temer o pior, meu muito vamos tirar umas coisas. Começou a rir nervoso e repor alguns itens. Quando a tela do caixa marcou 20, com a galera acompanhando que nem FlaxFlu, ela tentou inserir dois pacotes de pão integral na esteira. Senhora, já passaram 20. Mas eu quero meu pão. Senhora, preciso fechar a compra, seu marido passa o pão numa segunda compra logo.
A caixa ainda tentou evitar o pior. Ela viu, ela sabia, ela sentiu o cheiro do sangue nos olhos da fileira 27. Ah, mas eu quero passar junto. Eu vou passar junto, eu tô pagando, labareda o gerente.
S tijucano esquece que é suburbano com frequência. Pudera, tem Starbucks, Cinemark, food truck e barberia chique pra caralho cá, a gente acaba ficando confuso. Mas quando alguém solta um "tô pagando, labareda o gerente" num Mundial pleno quase às dez da noite é conjurado um tipo brabo de demônio. S demônio de "não tô pra sacanagem" vem virado no samurai atômico. Meu irmão, a fileira 27 lembrou que tijucano é suburbano com força, lembrou com raiva do lado que a gente tá.
No mundial, quase às dez da noite, não tem amorpufavô.
Chega o gerente, o marido implora, vamos embora, peloamordedeus, para de cena. S gerente conheceu na hora o naipe da galera da fileira 27. A caixa já estava empoderada: ela quer passar a força e não vou deixar. A galera urrava: não passsaaaaa!
Num golpe final a Madama ainda arriscou: logo eu vou levar o pão de perdão.
A galera gritava: não arregaaaaaa!
S gerente olhou de cima, soltou o decreto: Fulana, cancela a compra que essa senhora vai comprar em outro lugar.
A fileira explodiu. Companheiros da fileira 27, que momento. Não tinha cansaço, não tinha fruto em lar, não tinha término de mês. Vencemos.
Fonte: HuffPost Brasil
Estava voltando da Barra às nove e muitas da noite (só quem não é da Barra e volta da Barra sabe o impacto dessa frase -- porquê se fosse preciso encruzar dimensões e portais pra voltar pro nosso pedaço daquele condado único e tão propriamente Barra) quando marido avisou: acabou a fralda.
Pensei, tem na bolsa, rola até amanhã. Mas ele já completou logo: também acabou o moca e você sabe o que é manhã sem moca.
Amigos, se tem uma coisa que eu sei é: o que é manhã sem moca. Trevas, negrume e amargura.
Toca pro Mundial, vou na fileira rápida, véspera de feriado, vai ser tranquilo.
Passei por uma penca de bar pleno, pagodeira poderoso, cerveja descendo.
Pra gente dura, feriado antes do quinto dia útil não significa porra nenhuma. Aliás, qualquer dia antes do quinto dia útil é término de mês pra gente dura. Mas a gente vê o povo folgando, o coro comendo e fica num recalque daqueles.
Entro no Mundial, pleno mas suave, zero demais. Acaba a bateria, que merda, enxurrada de coisa pra resolver.
Gente dura resolve coisa pra caralho. P fruto que não dorme enquanto a gente não chega, é compromisso pra marcar, remarcar, lembrar e olvidar.
Pego a fralda, pego o moca, toca pra fileira. Todo mundo com aquela faceta, aquele recalque do mês alheio já ter começado, aquele cansaço do ano querendo findar.
Duas pessoas na minha frente, enxergo uma mulher e o marido com um carrinho pleno. Fila de vinte volumes, a fileira 27 onde estamos. Vai dar merda, pensei.
S marido percebe que estou olhando pro carrinho e pra placa dos 20 volumes. Meu muito, não vai dar pra passar cá. Ah vai sim, foda-se já estou cá e vai passar.
Os companheiros da fileira 27 começam a trocar olhares. Naquele foda-se aquela senhora selou seu direcção.
S maior erro dela foi ignorar o timing, o envolvente. Na fileira 27 não tinha ninguém pra sacanagem. Tava todo mundo num dia longo, numa semana difícil. Tava todo mundo voltando da Barra. Tava todo mundo com o fruto acordado em lar. Tava todo mundo com recalque do mês novo alheio.
Ela começou a botar os produtos na esteira. A caixa avisou: senhora, só passa 20 volumes. Ela riu, olhou pra trás uma vez ignorando todos os presságios: isso é o que vamos ver.
Os olhares dos companheiros da fileira 27 viraram exclamações: ah, vamos ver mesmo. Não vai passar não! Aqui não passa! Chama o gerente!
S marido começou a temer o pior, meu muito vamos tirar umas coisas. Começou a rir nervoso e repor alguns itens. Quando a tela do caixa marcou 20, com a galera acompanhando que nem FlaxFlu, ela tentou inserir dois pacotes de pão integral na esteira. Senhora, já passaram 20. Mas eu quero meu pão. Senhora, preciso fechar a compra, seu marido passa o pão numa segunda compra logo.
A caixa ainda tentou evitar o pior. Ela viu, ela sabia, ela sentiu o cheiro do sangue nos olhos da fileira 27. Ah, mas eu quero passar junto. Eu vou passar junto, eu tô pagando, labareda o gerente.
S tijucano esquece que é suburbano com frequência. Pudera, tem Starbucks, Cinemark, food truck e barberia chique pra caralho cá, a gente acaba ficando confuso. Mas quando alguém solta um "tô pagando, labareda o gerente" num Mundial pleno quase às dez da noite é conjurado um tipo brabo de demônio. S demônio de "não tô pra sacanagem" vem virado no samurai atômico. Meu irmão, a fileira 27 lembrou que tijucano é suburbano com força, lembrou com raiva do lado que a gente tá.
Ah, mas labareda mesmooooo!
Não vai passar mesmooooo!
Colega, não deixa ela falar assim com você não!
Regra é pra todo mundo, fdp safada! Até parece que come pão integral sua maldita!
No mundial, quase às dez da noite, não tem amorpufavô.
Chega o gerente, o marido implora, vamos embora, peloamordedeus, para de cena. S gerente conheceu na hora o naipe da galera da fileira 27. A caixa já estava empoderada: ela quer passar a força e não vou deixar. A galera urrava: não passsaaaaa!
Num golpe final a Madama ainda arriscou: logo eu vou levar o pão de perdão.
A galera gritava: não arregaaaaaa!
S gerente olhou de cima, soltou o decreto: Fulana, cancela a compra que essa senhora vai comprar em outro lugar.
A fileira explodiu. Companheiros da fileira 27, que momento. Não tinha cansaço, não tinha fruto em lar, não tinha término de mês. Vencemos.
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