A Chave- Parte 4- Capítulo 1- Início
Gotas começaram a cair do céu. Chegara a hora da chuva e com ela a quarta-feira de cinzas. Começaram automóveis a se desalinhar, alguns a avenida do contorno pegaram, outros entravam no viaduto procurando o bairro floresta e havia os que desciam a afonso pena a caminho da rua da Bahia. Daqui, apenas um vídro molhado e a solidão de lembranças que não me ocorrem mais.
.....
A velha pousada da esquina entre a caetes e a são paulo tinha habitante. Alton todas as vezes de manhã quando descia por ali de carro observava atentamente aquele curioso local. Logo na esquina, um antigo restaurante conservava ainda certo ar parisiense. Era um tira-gosto maravilhoso ao passeio. Muitos velhos visitavam-no continuamente. E é neste mesmo local que alton comprava todos os dias o "cafesinho para a viagem". Logo, ali perto, uma estreita portinha de madeira, de estilo bem antigo, dava acesso a uma escada espiral, que levava ao apartamento. Alton tinha um escritório logo ao lado bem no alto da rua são paulo. Ha poucos dias viu o porteiro trocando as fechaduras das portas. Fizeram uma pintura e e deixaram o local tinindo. Outra tarde, alguém esfregava a vidraça do janelão que dava pra rua, sobre as portas do restaurante, Depois não reparou mais.
Agora, lá em cima, na varandinha, um girassol enorme se debruçava como que espiando quem passasse. As cortinas leves esvoaçavam. Alguém morava ali, algum maluco, com certeza, amante de romance .
Alton trabalhava ao lado, do outro lado da rua, num prédio bem mal acabado, modesto para o seu padrão, mas tranqüilo e discreto. Entre tantas prostitutas e vendedores ambulantes, não havia no mundo esconderijo melhor.
Um dia, ao comprar mantimentos, cigarros e bebida, ouviu o dono do local dar ordens para um servente para entrega de gêneros ao apartamento do desconhecido.
- Leve Ia em cima. A moça já reclamou.
- Temos vizinhos? - retrucou alton Misterioso.
- Uma moça, dr. alton. Me parece que é fotógrafa. Tem um desses troços de desmontar que os fotógrafos usam, além de andar com ama máquina no pescoço.
- Cavalete?
- Deve ser. É aquela armação onde eles colocam as máquinas, o sr. sabe.
- Sei- riu- Boa visinhança. Logo, logo, teremos um novo "Jr. duran!
- É- respondeu o velho, mesmo sem entender do que se tratava.
- sim, senhor!
Porem, por mais de um mês, não teve a oportunidade de conhecer a habitante daquela pousada. Que rosto teria tal moça? Seria real mente fotografa? Loira ou morena? A curiosidade desafiava a mente. Para ele nomes, referências, retratos feitos com palavras não passavam de abstrações, Só conhecia olhando, vendo , pegando, analisando as formas, o que era mania de ofício. Reconhecia que muitas vezes atropeçava. As formas são enganosas e ocultam mistérios que não exteriorizam no corte duma boca, na asa dum nariz, na fuga de um olhar.
Certa vez, já era noite quando saiu do trabalho. Passando pela rua para pegar o carro do outro lado, como a janelão estivesse iluminado, olhou pra cima. A moradora debruçou-se para vê-lo. Dava as costas para a luz e alton não pode ver seu rosto, chegou a voltar-se, mas conteve-se. Ficou pensando na sua nova visão até o dia seguinte. Queria descobrir quem era aquela garota, sabia apenas que era apenas clara e de cabelos negros. No dia seguinte, lá estava ela novamente. Já de longe alton fixou-lhe os traços e achou a sua imagem interessante. Uma magia nos olhos, esta lhe escapara. Alton ergueu a cabeça quando passava pela janela e ela como na noite anterior, debruçou-se para vê-lo. Era realmente bonita e, vista assim de baixo para cima, parecia ser formosa. Não, não poderia chamar- se Vivian. Continuou a andar e antes de pegar o carro, virrou-se para fitá-la mais uma vez. E a moça, que o acompanhava com o olhar, surpreendida pela insistência, soltou-lhe um terno sorriso. Ele sentiu-se ongulhoso com a recepção, mas notou as marcas no rosto daquela bela desconhecida. Apesar da estranhesa que causou o momento não se espantou com a surpresa, apenas orgulhou-se da resposta...um sorriso!, repetia...
Aquilo fez-lhe um bem imenso pela noite adentro. Diante do espelho ao barbear-se repetiu diversas vezes aquele sorriso e sentiu-se livre. Porque não retribuiria ao gesto? Estava sempre atrasado nas respostas. Dias depois, conheceram-se.
- Volte, se quiser, mas...olhe que sou cagaz de me apaixonar por você- disse num jato, e alton jurou que não se turbinara. Aceito a revelação sem surpresa, como se a esperasse. Um aroma bom e calmo se desprendia dela tocado de leve pelo shampoo dos cabelos, que devia ter lavado a pouco.
Eu voltaria, de qualquer forma exatamente para que isso acontecesse .
- Agora vá embora, ande, antes que eu chore- e empurrou-o para fora. Alton beijou-lhe as mãos, depois segurou-a pelos ombros e beijou-lhe a boca rapidamente. Ela resistiu um pouco, admirada, mas cedeu.
- Atrevido!
- Não pude resistir.
- Que desculpa esfarrapada- Vivian pôs-lhe as mãos nos ombros e os braços estirados, par impedi-la de beijá-la novamente
- Gostaria de sair contigo esta noite?
Cláudia o esperava para levá-la à casa de alessandra, se lembrou. E já estava na hora. Podia telefonar-lhe...
- Porque não vamos., então?
- Você pode?!
- Ora, claro! basta telefonar!
- Se tiver algum compromisso. Você é quem sabe- e abraçou-o, oferecendo-lhe a boca novamente colocando-se toda sobre ele. Só não permitiu sua invasão. Quando as mãos dele lhe descobriram o corpo timidamente, arredou-o num pulo:
- Não - e como ele se calou, sem reação, ternamente tocou-lhe a face
- Não! Como ele ainda não se movia, passou-lhe a mão pelos cabelos e tocou os lábios com a ponta dos dedos- - Você parece um sonho, sabia?
Alton tomou-lhe a mão e beijou-a palma. E tão ardentemente, que ofereceu-lhe outra vez, comovida. Ai deixou que lhe entreabris-se o vestido e lhe beijasse o colo. A mão ansiosa de alton procurava nas costas as alças ou um laço e destou. Agora, os olhos habituados a escuridão, afastava a luz da janela em que encobria sua imagem, para vê-la quase nua a sua frente. Ela fechou o vestido , envergonhada, deu as costas e distandiou-se. O silêncio consumiu todo o cômodo. Caminhou em direção à janela. Não se sentia absolutamente feliz. Cláudia esperava-o e que certamente estranharia a sua susência, ate as explicações do dia seguinte.
Vivian esperava-o, agora vestida num vestido escuro, elegantérrimo, que dava-lhe um ar de autoridade feminina.
- Está linda!- Exclamou, orgulhoso. Mas havia cláudia- Posso telefonar? Vivian, prendendo entre os dentes uma piranha que tirara do cabelo indicou-lhe com os olhos o criado-mudo. alton sentou-se à beira do sofá e discou. Não houve resposta. Tentou rediscar, mas nada., repetiu a ação inúmeras vezes ate desistir
- Inútil! melhor assiml
Quiz levar Vivian a um cinema ou a um teatro, mas a moça não aceitou. Foram então dar umas voltas pelas ruas do centro, de braços dados à caminho da praça da liberdade. Lá encostaram, enamorando-se. Sob as arvores, no escuro, ela se deixou beijar rapidamente no rosto e no pescoço, mas lhe fugia com a boca. Voltaram de ônibus, agarradinhos no banco de trás, como namorados, dizendo tolices, baixinho, um no ouvido do outro, como confidencias, mas sem troca das vidas particulares. São segredos e segredos são derrotas. Na porta, ela estendeu-lhe o rosto para um beijo.
- Não posso subir?
- hoje não.
- Não
Alton não insistiu e foi embora.
Apesar de ter sido tão rápido, a mente gravava como mensagem. Era como uma ilusão em carne e osso materializando-se a minha frente. Podia vê-la sem tocar, tinha personalidade e vida própria. Modelo da fantasia de Alton...
Estava ali, perto, ao alcance das mãos . Mas um apelo desesperado o impedia de chegar até ela. Era como um chamado ao ilusório da paixao. Alton não mais via figuras, mas nada , um nublado de imagens confiusas.
Chamava-as de Vivian, mas nada se formava à sua frente. Não fazia sentido todo aquele combinado, já que a surpresa era a mais completa curiosidade. Alton sentia seu corpo estranho cada vez que aquela imagem voltava à mente. Era um sentimento de cuIpa advindo de lugar nenhum, como escape de uma dor incompleta.
Havia curiosidade e medo. Fazia parte do seu próprio jogo, um baralho humano onde suas mais importantes cartas poderiam ser trunfos ou mesmo uma catástrofe. Conhecia a necessidade de se encontrar mas os desejos e desafios pareciam parceiros da dúvida...


