Sem ´sujeirinhas´ não há amor

É café sem cafeína, drinque sem álcool, doce sem açúcar, massa sem glúten, o que era com ficou sem.
Ai tudo bem, o mundo está ficando muito limpinho e saudável mesmo.
Mas perai. As paranoias de saúde, bem-estar etc, ok, compreendo. Afinal de contas o medo da Velha da Foice é legítimo, mora na filosofia desde priscas eras.
Sexo sem cheiro é que não dá. Ah, não. Pare o mundo que eu quero descer, como cantava o profético Sylvio Brito.
E cada vez ganha adeptos o sexo limpinho tipo aquele velho anúncio das havaianas: não solta as tiras e não tem cheiro.
Como se a limpeza extremada livrasse de todo o mal, o pecado, amém.
Havia escrito aqui neste blog do louco amor sobre os malucos que transam e correm para o chuveiro. Homens-flexas da assepsia. Nem aconchegam a nega sobre o lado esquerdo do peito, para que ela sinta as sístoles e as diástoles do acontecimento, um dos maiores prazeres da humanidade.
Necas, o avexamento asséptico não deixa. Vupt.
E haja ducha, escova de dentes, antisséptico bucal até no pau, senhoras e senhores.
Fazer sexo e não sentir aquele cheiro, o original bom-ar de Deus desde o Gênesis, é passar pela vida e não fazer jus aos cinco sentidos que trouxe do berço.
É ignorar um dos livros essenciais da humanidade, como o da capa que ilustra este post. Estou relendo. Recomendo a trilogia completa: Sexus, Plexus e Nexus.
Havia tratado também sobre a turma do nojinho em relação aos pelos. A nada ecológica mania de decepar a Amazônia legal das moças.
Tudo bem, até a amada Claudia Ohana já disse que mudou de estilo, não preserva o belo e misterioso bosque da Playboy dos anos 80. Depilar tudo bem, o que falo é dessa obsessão pela raspadinha radical. Baita infantilização do sexo, meu caro Sigmund?
Cuidado higiênico, ótimo, é o mínimo. O que não dá é esse sexo extremamente asséptico ao ponto de eliminar todos os cheiros, melações e sujeirinhas naturalíssimas da arte milenar de fazer amor.
É que li hoje uma reportagem na seção “Saúde & Equilíbrio” da Folha e fiquei espantado com os exageros. Muita gente caindo no conto da propaganda da turma do nojinho. matéria completa aqui.
Correr para tomar banho e fugir das sujeiras do amor, faz favor, é pior que fazer aquela selfie pós-sexo.
Viver suja.
Fonte: Xico Sá