No pinga-pinga do amor líquido

JulesEtJim

Ou Oração subordinada às moças e aos rapazes de boa vontade.

Domingo gelado, coração idem, posta a amiga da Vila Tolstói, ZL, São Paulo.

Pergunto sobre casos, namoricos, ficâncias, encontros do Tinder e outros eventuais acontecimentos do pinga-pinga do amor líquido.

A nega andara fazendo bom-uso do Tinder, na leveza, sem preconceito.

W., porém, não está nada bem. A frequência e o vazio dos encontros, relata, a deixou numa ressaca dos diabos.

Tento a demover pelo menos da parte moral do desespero –ainda não criaram o Engov da culpa.

O domingo gelado não deixa. Dá mole para a tristeza em um final de domingo é o mesmo que botar o enfezado bode sartriano para tomar conta do capinzal da existência.

Com algum desdém, mas querendo ouvir de novo, W. pede que leia para ela ou envie por email uma velha crônica sobre os descrentes no amor. A miseravona ainda chama de “auto-ajuda chique”, só para me irritar um pouquinho de nada.

Seja o que for, nesse domingo gelado de coração idem, ai vai minha oração subordinada às moças e aos rapazes de boa vontade;

Triste de quem fica desiludido(a) e evita outro amor de novo, cai no conto, blasfema, diz “tô fora”, já era, tira onda, ri de quem ama, pragueja e nunca se encontra dentro das próprias vestes.

Como se o amor fosse um quiosque de lucros, a bolsa de mercadorias e futuro, um fiado só amanhã, um comércio.

Como se dele fosse possível sair vivo, como nunca tivesse ouvido aquela parada de Camões, a do fogo que arde e não se sente, a da ferida, aquela sampleada por Renato Russo.

Triste de quem nem sabe se vingar do baque, sequer cantarola, no banheiro ou no botequim, “só vingança, vingança, vingança!”, o clássico de Lupicínio, o inventor da dor-de-cotovelo, a esquina dos ossos úmero com os ossos ulna (antigo cúbito) e rádio, claro, lição da anatomia e da espera no balcão da vida.

Tudo bem não querer repetir, com a mesma maldita pessoa, os mesmos erros, barracos  e infernos avulsos e particularíssimos.

Triste de quem encerra o afeto de vez, como se aquela mulher e/ou aquele homem “x” fossem fumar o king size -duvidoso e sem filtro- lá fora e representassem o último dos humanos.

Chega do mané-clichê: todos os homens ou mulheres são iguais. Argh.

São, mas não são, senhoras e senhores. Cada vez que uma folha se mexe no universo a vida é diferente – acho que roubei isso da arte zen de consertar motocicleta.

Todos os machos e todas as fêmeas são novidades. Podem até ser piores, uns do que os outros, porém dependem de vários fatores. Não adianta chamar o garçom-do-amor e passar a régua para sempre por causa de apenas um traste. Como se esta miserável criatura representasse a parte pelo todo da panelinha do mundo.

Já pensou quantos amores possíveis você estaria dispensando por essa causa errada?

E quem disse que amor é para dar certo?

Amor é uma viagem. De ácido.

E tem : a única vacina para um amor perdido é um novo amor achado. Vai nessa, aconselho! Só cura mesmo com outro. Mesmo que um placebo.

Muitas vezes não temos o amor da vida, mas temos um belo amor da semana, da quinzena, que de tão intenso e quente logo derrete. Foi bonita a festa, pá e pronto.

Vale tudo, só não vale o fastio e a descrença. Levanta desta ressaca amorosa, meu Lázaro, minha Lázara.

Fonte: Xico Sá