Apesar de você

Há poucos dias, o Facebook me fez lembrar que três anos detrás eu tomei uma decisão muito séria.

Não que em qualquer momento eu pudesse ter esquecido o que havia realizado, mas, aproveitando o chegada "memorialístico" na rede social e todo o ensejo de votos de felicidade que pairam no término do ano, pela primeira vez, falei sobre o ponto.

Surpreendentemente recebi uma série de mensagens de amigos que enfrentaram ou enfrentam problemas semelhantes e até logo não tiveram oportunidade e coragem de falar sobre, achando que estavam sozinhos.

S objecto? Assédio moral no trabalho.

Somente naquele momento percebi porquê é um problema que atinge uma parcela maior do que eu supunha, mas que, infelizmente, ainda mantém as pessoas em silêncio.

Quando cheguei ao Rio de Janeiro, quatro anos detrás, minha primeira experiência profissional foi permeada por um grave assédio moral. Minha coordenadora e eu sofríamos agressões, diretas e indiretas, verbais, psicológicas, diariamente, de uma pessoa. A coordenadora vivia sob a ameaço de que na sua idade seria muito difícil conseguir outro ofício caso não se sujeitasse às condições impostas, e eu sob a ameaço de que morava em apartamento alugado, de que tinha vindo de outro estado e teria minha reputação negativada.

Minha vida pessoal estava sendo muito prejudicada, eu sofria de fibromialgia e gastrite nervosa e não passava um dia sem tomar calmantes. No dia 27 de dezembro de 2012, decidi que isso não poderia continuar: deixei todas as minhas coisas no escritório, peguei minha bolsa, saí e nunca voltei. Achava que um dia acabaria morrendo. Poucos meses depois, minha coordenadora morreu mesmo. Ela estava tomando uma ração muito subida de calmantes e, ao transpor do trabalho, foi terçar a rua, mas estava muito sedada e acabou atropelada, em frente ao lugar que durante anos só a fez suportar.

Quando temos responsabilidades, muitas vezes elas sem querer acabam se tornando moeda de troca para subornar nossa honra. E acabamos trocando uma coisa por outra, por temor, por instabilidade, por premência, por descobrir que as coisas têm de ser assim mesmo. Não, elas não têm. Estima-se que da metade da população trabalhadora brasileira sofra ou já tenha sofrido abusos no envolvente de trabalho, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Leis estão sendo desrespeitadas, pessoas estão morrendo. Devido à falta de apuração, de denúncia, a impunidade é ordenado e dá respaldo à ininterrupção dessas práticas.

Vejo muitos amigos queridos que, dentro desse "sistema de trocas", acabam abrindo mão da própria distinção, sofrendo, se sujeitando a situações vexatórias e exploratórias, sempre sob ameaças que os fragilizam emocionalmente e os colocam em posição de subjugação. E até mesmo, em um ciclo inconsciente e vicioso, eles acabam reproduzindo em outros o comportamento opressor do qual são tão vítimas.

Ao contrário do que muito se crê, a distinção anda junto com a responsabilidade, e ambas andam junto com reverência, com paixão-próprio, com honestidade. Se as leis deixam de ser cumpridas, é necessário buscar esteio. Procure o Ministério do Trabalho e do Emprego, a Superintendência Regional do Trabalho, converse com um jurisperito. Não permita que isso continue acontecendo.

Os meses que se sucederam à minha saída foram duros. Mas são nesses momentos em que percebemos que somos competentes, somos saudáveis, temos amigos, temos colegas, temos família; podemos viver dificuldades, mas não passaremos premência.

S ano de 2016 se inicia, ocasionando aqueles desejos de renovação, trazendo fôlego para novas empreitadas. Eu gostaria manifestar a todos que sofrem de assédio moral que: não, vocês não são obrigados a passar pelo que estão passando. E não se sujeitar não é rebeldia, não é irresponsabilidade, não é falso; trata-se somente do reverência que vocês merecem, porquê trabalhadores, porquê cidadãos.

E vocês não estão sozinhos.

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Fonte: HuffPost Brasil