O yoga como busca do autoencontro

Como você avalia o aumento do número de adeptos de yoga Brasil afora, inclusive no Ceará?

Pratico há 33 anos e sou professora há 28. Há 30 anos, a prática era uma coisa. Hoje, é outra. O que temos de ver é que o yoga está alicerçado em um estilo de vida. Temos muitos praticantes no Brasil hoje, mas nem todos estão comprometidos com o estilo de vida "yóguico". Ele tem de estar estruturado numa ética que dá suporte para a verdade. O crescimento da prática é global, porque, numa perspectiva externa, ela tem função muito grande de manter a saúde física e o equilíbrio dos sistemas orgânicos. É, também, por proporcionar esse bem-estar físico, uma boa performance, um estado tranquilo, uma mente não reativa e um espírito de paz, que o yoga cresce a cada dia.

Esses seriam, então, os principais preceitos "yóguicos"?

Com certeza. Não posso estar sendo ótima ali no tapetinho (de yoga) e quando chego à esquina ter comportamentos contrários às premissas éticas da filosofia. Viver no yoga significa viver de uma forma pacífica que gere e contribua para a paz no mundo. Se estou criando sofrimento, não estou praticando yoga, uma vez que o primeiro preceito é a não violência. Não vou dizer que conseguimos manter isso 24 horas por dia. Às vezes, a mente sai do controle, mas temos ferramentas eficazes para sustentá-la em paz o tempo todo.

É possível dizer, portanto, que esse crescimento se justifica por uma conscientização das pessoas que procuram o yoga hoje em dia?

A questão é que nós vivemos numa sociedade em que existe um vazio existencial muito grande. Podemos ter tudo materialmente, mas, dentro de nós, há um vazio imenso. A prática consistente de yoga, por fazer um movimento de retorno à nossa essência, vai alimentando esses aspectos da nossa natureza sutil que a vida aqui fora não alimenta. Você está vivendo o yoga a partir da sua essência interna. Tudo aquilo que não machuco em mim, eu não vou machucar no outro. Ao me nutrir de luz, estou, inevitavelmente, nutrindo essa luz no outro. Se quero o bem no mundo, vou começar por mim. E você não fará simplesmente porque está sendo imposto, você vai colocar a filosofia "yóguica" em prática e ver os resultados.

Quais as motivações que levam os alunos à primeira aula?

A inicial é, principalmente, doença. A pessoa já procurou um monte de lugares e falaram para ela que, fazendo yoga, melhoraria. Podem ser doenças sintomáticas ou de estresse, por exemplo, já que, às vezes, você está tão fatigado que não consegue perceber o nível de doença em que está. Para o yoga, doença significa o afastamento da sua natureza interna. Quanto distante está de si mesmo, doente está. E, numa aula de yoga, você sente essa aproximação consigo. Mas a motivação inicial é, de fato, trabalhar o corpo físico para ter saúde.

Há contraindicações para o yoga?

Existem sim, mas são todas possíveis de serem adaptadas na prática. Mesmo a pessoa que não consegue fazer movimento algum, seja por uma idade avançada ou por problema de saúde, deve levar em conta que o yoga tem toda a prática mental, que é muito maior do que a física. O campo das técnicas meditativas não tem limites, então é possível praticá-lo perfeitamente, porque ela está ali, em contato com os processos mentais.

A idade inicial para a prática varia muito de cada pessoa?

Tem crianças que já vêm prontas para o yoga. Elas sentam, silenciam e tudo o que querem é estar lá se conhecendo. Outras não têm essa consciência, precisam de energia para pôr para fora. É muito da natureza de cada um. O yoga também não é para todo mundo, assim como nada é para todos, porque cada natureza requer algo diferente! Se estou com a minha natureza muito agitada, por exemplo, o yoga vai me auxiliar profundamente, mas, no início, terei certa impaciência. A prática, para mim, é uma chamada de consciência.

As escolas de yoga oferecem várias modalidades. O que as diferencia?

Na realidade, todas essas modalidades físicas da tradição do yoga vêm de uma só escola, que se chama Hatha Yoga. Dessa grande corrente é que surgem inúmeras outras abordagens, e hoje temos muitas à disposição: o Iyengar Yoga, o Ashtanga Yoga, o Kundalini Yoga, o Vinyasa Yoga, o Yogaterapia, o Yoga Integral. São ramos vindos de uma só árvore.

Paralelamente a essas modalidades, outras práticas estão se popularizando, como o Yoga Fitness e o SUP Yoga, praticado sobre pranchas de stand up paddle. Esses exemplos recentes são, também, derivações dessa raiz em comum?

Não derivam dessa grande árvore chamada Hatha Yoga. Essas modalidades se apropriam de alguns aspectos e os introduzem nessas práticas para poderem suprir uma necessidade que o mercado está exigindo. É possível perceber que fazer posturas em cima de uma prancha requer, sobretudo, concentração, que é um ponto básico do yoga. Se não associarmos a prática a uma vida "yóguica", entretanto, é complicado. São abordagens bem externas e, com o tempo, vamos percebendo que têm limites, enquanto o yoga interno não tem. O limite do yoga interno, se é que podemos chamar de limite, é a iluminação. É um mundo que se abre à sua frente, no qual você tem o domínio de todas as coisas: passado, presente e futuro. Ou seja: isso deixa de existir, porque só há no mundo fenomênico. Esse é o caminho.

Alguns textos que tratam do yogaterapia, em especial, apontam essa prática como diferente das outras no sentido de dar ênfase a um processo de cura. Ela tem, de fato, essas indicações específicas?

O yogaterapia atua muito profundamente. Se você está com um problema físico, que é efeito, ele vai em busca da causa e lhe conduz para o entendimento dela, porque uma das leis que sustentam todo o campo filosófico do yoga é a da causação. O que está acontecendo comigo, agora, seja no plano físico, emocional, mental, existencial, tem uma causa, e eu preciso compreendê-la. A cura só vai se estabelecer quando eu chegar à causa.

Essencialmente, os benefícios são comuns aos praticantes, indepen- dentemente da motivação ?

Sim. Só consigo chegar a um ponto quando a minha motivação é boa. Eu digo para você assim: "Toma esse chazinho, que vai apaziguar o seu fígado", mas você não tem motivação para tomar aquele chá. Ele vai ficar em cima da mesa! Já outra pessoa está totalmente motivada e toma o chá agora, no fim do dia e evita alimentos que prejudicariam o fígado. A motivação deste último não é muito eficaz para que chegue ao ponto de cura do que quando faço a coisa sem compreendê-la? O yoga tem seu efeito no processo de cura, mas depende do grau de informação e de entendimento do que está buscando.

Não podemos, portanto, dizer que, na prática, existe uma modalidade superior a outra, apesar de o Hatha Yoga ser a raiz das demais. Nesse sentido, como a pessoa que pretende iniciar a prática pode escolher e se encontrar em uma abordagem específica?

O ideal é fazer aula experimental em cada modalidade, porque cada abordagem preenche muito a característica pessoal de cada um. Assim, quem é muito ativa não se sentirá ancorada em uma prática lenta, porém se fizer a de Hashtanga, por exemplo, pode se sentir completamente ancorada. Por isso, recomendo fazer a aula experimental, que geralmente não tem compromisso nenhum com a escola, para ver se gosta. Ao escolher uma, você fará um acordo com a sua natureza. Dá pra mudar a nossa natureza? Ela pode ser moldada, lapidada, sutilizada, mas as coisas que você vai buscar fazer estarão sempre de acordo com a sua essência.

Fonte: Vida