Te vejo no Tinder, beijo, não me liga

 

Xilogravura de João Pedro, Juazeiro do Norte

Xilogravura de João Pedro, Juazeiro do Norte

É cada uma nesses tempos de amores líquidos e escorregadios. Todo mundo se entende num clique de um curtir do facebook ou de um coraçãozinho inflamável em um aplicativo.

Repare nessa pequena fábula de modernagem que ocorreu outro dia com uma amiga queridíssima e desejadíssima de SP.

Depois de uns seis meses de peleja, paixão e poucos encontros –ele sempre ensaboado e fugidio como a maioria dos homens de hoje-, ela resolve se livrar da pequena tortura amorosa.

Chega!

Sem essa de pouca chuva no seu roçado. De secura/volume morto basta o da capital paulistana.

Eis que a amiga, de saco cheio mesmo, resolve entrar no Tinder, essa brincadeira da grande comilança, como diz meu amigo Marco Ferreri.

Logo na terceira opção da galeria do tesão clandestino, surge o cara, todo “se-achando” na fotinha de isca.

Entre a surpresa e um risinho nervoso, a nega mandou um coraçãozinho para cima do desalmado. Não é que o miserável tinha flechado também a bela moça!

Rolou o “match”, a coincidência que tem feito a alegria, pelo menos a alegria passageira, dos amantes de Internet.

Poucas horas antes o infeliz-das-costas-ocas havia demonstrado o seu fastio, dito que não estava a fim, blábláblá e outras nove-horas.

Só rindo mesmo, como ela fez ao me narrar a fábula moderna.

Teria ficado com ciúme da presença da moça na farra do aplicativo, mesmo tendo dito que não estava no jogo com ela?

A historinha me fez lembrar de uma frase do escritor norte-americano Jonathan Franzen, em um ensaio do livro “Como ficar sozinho” (Companhia das Letras, 2012):

“O amor representa uma enorme ameaça à ordem tecnoconsumista, porque ele denuncia a mentira”.

O ficcionista também mandou essa, que cairia tão bem no episódio real quanto o vestuário sexy da minha amiga:

“O simples fato é que a tentativa de ser perfeitamente curtível é incompatível com os relacionamentos amorosos”.

É. Pode ser. O que você acha, nobilíssimo leitorado?

Fonte: Xico Sá