Tragédias políticas
(artigo publicado na “Folha” de hoje)
Lembrar de carreiras políticas atingidas pela morte repentina, como a de Eduardo Campos, é tarefa relativamente fácil: logo vêm à mente os exemplos de Tancredo Neves e Getúlio Vargas –para não falar dos acidentes com Juscelino Kubitschek e Castello Branco e dos casos médicos de Carlos Lacerda, Jango ou Costa e Silva.
Sim. Mas com todo o respeito que se possa ter pela figura de Eduardo Campos, a comparação parece muito exagerada. O candidato do PSB não era o favorito nas pesquisas, e sua representatividade política, pelo menos em São Paulo, ainda era coisa a ser construída.
A possibilidade de que Campos viesse a empolgar a classe média e os empresários paulistas se baseava no fato de que, pela primeira vez, a oposição tucana tinha um candidato nascido “fora do ninho”.
Esgotados os cartuchos de Serra, de Alckmin e de Fernando Henrique, o mineiro Aécio Neves deixou o eleitorado antipetista de São Paulo órfão de um candidato “natural”.
Por isso, Eduardo Campos apostava (ou “era apostado”) numa proximidade com o poder econômico paulista que poucos políticos fora do Sudeste puderam alcançar. Havia muito a ser trabalhado, contudo, para que esse projeto se consolidasse até outubro.
O maior assemelhado de Campos, dessa ótica, não seria nenhuma dessas grandes lideranças desaparecidas tragicamente, mas outro ex-governador nordestino de olhos azuis: o tucano cearense Tasso Jereissati. Que se contenta, atualmente, em ser candidato a senador por seu Estado, numa coligação monstro que tem Eunício de Oliveira (PMDB) disputando o governo.
As comparações iniciais com Tancredo e Getúlio, motivadas sem dúvida pela emoção do choque e pela simpatia que Campos despertava, vão assim se atenuando. Os casos que surgiram imediatamente à memória se revelam menos pertinentes. Para dimensionar o caso de Eduardo Campos, temos de buscar nos arquivos –o que não deixa de ser triste— tragédias políticas um bocado obscuras.
Foi lembrado, assim, o acidente de helicóptero com Clériston Andrade, candidato ao governo da Bahia em 1982, ou o desastre aéreo que matou Salgado Filho, postulante gaúcho nas eleições estaduais de 1950.
Mas aí já estamos escavando muito fundo nas camadas arqueológicas da história regional.
Podemos ir longe, contudo. E aí as coisas ficam especialmente cruéis para todos os envolvidos na comparação.
É estranho que um nome de outro político muito promissor, que também morreu de repente, não seja lembrado de imediato quando se analisa o destino de Eduardo Campos. Estou pensando em Luiz Eduardo Magalhães, do DEM, vitimado por um enfarte aos 43 anos.
Não era candidato à presidência da República –aspirava ainda ao governo baiano. Mas tinha sido presidente da Câmara dos Deputados e surgia como um nome mágico, capaz de garantir uma alternância entre PSDB e DEM no Palácio do Planalto. Quando morreu, em 1998, muitos comentários aludiam a seu papel insubstituível como articulador no governo Fernando Henrique.
Tornou-se, como Salgado Filho em Porto Alegre, nome de um aeroporto (que Deus nos livre desse destino)—e de um município na Bahia.
Indo para o passado, o PTB de João Goulart depositava muitas esperanças no nome de um jovem político fluminense, Roberto Silveira. Dizia-se que era um grande talento. Morreu num acidente de helicóptero em 1961, deixando seu legado político a familiares de expressão local.
Outro acidente de helicóptero matou Ulysses Guimarães e Severo Gomes em 1992. Ambos já tinham cumprido missões históricas na redemocratização do país.
Não foram lembrados agora –e nem nome de município, pelo que eu sei, terminaram virando. A política, por cruel que seja dizer isso agora, é sobretudo a arte da sobrevivência.
