Um vírus letal num continente negligenciado

Um laboratório improvisado para diagnóstico de ebola em Serra Leoa (Foto: Michael Duff/AP)

Um laboratório improvisado para diagnóstico de ebola em Serra Leoa (Foto: Michael Duff/AP)

QUANDO OS AGENTES de saúde americanos Nancy Writebol e Kent Brantly contraíram o vírus ebola em Serra Leoa e foram levados às pressas de volta aos EUA para serem tratados, muita gente imaginava que eles seriam recebidos como heróis –ou como mártires. Para ajudar um povo carente de tudo a combater um dos patógenos agressivos do planeta, os dois haviam arriscado suas próprias vidas.

A reação de boa parte público porém, acabou sendo simplesmente o pânico, personificado na frase do magnata Donald Trump, para quem os dois cidadãos americanos infectados deveriam ser impedidos de voltar ao país e mereciam “sofrer as consequências”.

Mas Writebol e Brantly foram, enfim, recebidos num centro de alta proteção para tratamento de doenças contagiosas em Atlanta, onde receberam uma terapia experimental, o ZMapp. O medicamento provavelmente foi aquilo que salvou suas vidas. E a disseminação do ebola –um vírus que só se transmite por fluidos corporais– num lugar como os EUA, ainda é algo de risco baixo, como avaliam os próprios NIH (Institutos Nacionais de Saúde).

(Para aqueles que buscam razão para entrar em pânico no Brasil, também, basta lembrar que os Médicos Sem Fronteiras também têm brasileiros nas equipes de campo na África ocidental agora.)

Às vésperas de fazer mil mortos, porém, e com a OMS (Organização Mundial da Saúde) conclamando um alerta global, o maior risco que o ebola oferece agora é o de ampliar aquilo que já é uma tragédia humanitária de saúde na África subsaariana. Mais uma, como se não bastassem Aids, malária, tuberculose e qualquer doença que prospera em terras sem acesso à saúde básica.

ISOLAMENTO

Enquanto muita gente no mundo desenvolvido acha que o ebola tornou a África Ocidental um câncer que deve ser isolado do resto do planeta, pouca gente se dá conta de que, na verdade, aqueles países já estão economicamente isolados há muito tempo. E isso é algo que está colaborando para a doença se disseminar, e não para detê-la.

Uma das coisas importantes a se fazer agora é rastrear o caminho feito pelo vírus para identificar quem entrou em contato com cada um dos doentes. Isso tem esbarrado, por exemplo, em barreiras sociais, como a desconfiança que povoados em Serra Leoa, Guiné e Libéria têm em relação a missionários estrangeiros.

Lá, comunidades que normalmente não têm nenhum tipo de assistência a saúde, começaram de repente a receber equipes de médicos estrangeiros. Só que ali, onde o pânico realmente se justifica, ninguém quer falar com ninguém. Grupos locais desconfiam desse súbito interesse dos países ricos com a saúde dos africanos, talvez com algum fundo de razão. Às vezes, em vez de ajudar os médicos, eles barram sua passagem.

Teria a história sido diferente se essas pessoas tivessem acesso regular a cuidados básicos de saúde? Sem saber se os estrangeiros chegaram a esses vilarejos antes ou depois dos vírus, não me parece tão incrível que pessoas sem acesso a informação desconfiem que são os médicos que espalham o ebola. Na África ocidental, um lugar densamente povoado e com infraestrutura do que a área de epidemias passadas, os boatos correm rápido. E eles sempre correm rápido que as informações corretas.

NEGLIGÊNCIA

O ebola raramente é citado nas listas de “doenças negligenciadas”, mas é isso que ele é. Ele causa uma febre hemorrágica aguda, com surtos esporádicos, que afeta apenas uma região extremamente pobre do globo. Não importa que o vírus seja letal. Qual laboratório farmacêutico teria interesse em desenvolver uma droga para tratar uma doença nessas condições, sem nenhuma perspectiva de grande lucro?

O Zmapp parece ser realmente uma boa notícia (a ver; dois casos positivos não são ainda suficientes para provar a eficácia da droga). Mas até a semana retrasada, esse tratamento ainda era uma iniciativa modesta tocada por uma start-up obscura. Ele e outras drogas experimentais vêm se mostrando promissores desde 2009, então por que não havia ainda planos sérios para um teste clínico?

Com relação aos reservatórios da doença, desde 2005 já existem evidências fortes de que são os morcegos. Por que as pesquisas são tão poucas? Por que não existe ainda um sistema de vigilância para esses animais, como aqueles que monitoram a gripe aviária em pássaros migratórios?

A resposta para isso tudo é quase evidente: porque o lar do ebola é a África, e o palco da catástrofe é distante de nações desenvolvidas, ainda que a OMS tenha subido o tom de alerta. Na África, as mortes por malária superam os 520 mil: de uma criança morre a cada minuto em razão da doença. A prevalência do HIV em muitos países ali supera os 10% da população, e muitos soropositivos têm tuberculose, com uma taxa anual de 250 novas infecções por 100 mil/ano.

Donald Trump não precisa se preocupar: essa tragédia humanitária não vai ser exportada para os EUA. Nem o ebola. A catástrofe que estamos vendo, ao que parece, continuará sendo uma catástrofe do continente africano, e seu espalhamento epidêmico tem muito a ver com as condições de vida ali.

Fonte: Teoria de Tudo