Viva a ciclovia de São Paulo!
Eu estava evitando falar neste assunto publicamente porque, como política de vida, tenho preferido não entrar em discussões com gente que não vai mudar de opinião - para que jogar sementes na terra arrasada? Mas o estômago tem revirado tanto a cada link compartilhado que superou minha preguiça macunaímica e, ok, vou entrar na disputa pela contra-narrativa.
Depois de muitos anos tomando fina dos carros, sendo xingado e até expulso do prédio pela síndica (porque "bicicleta só serve para sujar elevador"), levando fechadas e buzinadas na orelha e colocando a vida à prova (mas perseverando porque, sim, tenho a convicção de estar fazendo a coisa certa), eu e centenas de ciclistas temos 10% de algumas ruas do Centro de São Paulo para circular. \o/ Essa faixinha vermelha chama-se ciclovia, algo que no Brasil não se vê, não se come, só se ouve falar.
Pois elas chegaram e começou o chorume-tira-esperança-de-qualquer-mortal-pensante. ede-globo/bom-dia-sao-paulo/v/moradores-e-comerciantes-reclamam-de-implantacao-de-ciclovias-em-ruas-da-capital/3530273/" target="_hplink">Comerciantes reclamando. Motoristas reclamando. Moradores reclamando. Senhorzinhos reclamando. Associações reclamando. Jornalistas reclamando. Chamando a polícia, fazendo abaixo-assinado, acionando o Ministério Público.
Primeiramente: vão todos à merda! (#prontodesabafei)
Segundo. 400km de ciclovias foi promessa de campanha do prefeito Fernando Haddad, eleito democraticamente. Que bom, ele está cumprindo.
Terceiro. Em 4 anos, 185 ciclistas morreram em São Paulo e outros 3.200 foram internados depois do atropelamento pelos companheiros de 1 tonelada (os carros amáveis e gentis).
Quarto. Ciclovias são o símbolo de cidades abertas. Desde o início dos anos 1960, em que grupos como os Provos em Amsterdã defendiam o fechamento do centro da cidade para carros, até Bogotá nos anos 1990-2000, em que os prefeitos Antanas Mockus e Enrique Peñalosa fizeram uma revolução urbanística privilegiando a bicicleta. Como diz Chris Carlsson, bicicletas são uma das "nowtopias", as "utopias do agora".
Quinto. Bicicletas não poluem, fazem bem à saúde, incentivam a convivência, geram pertencimento e são divertidas. Carros são o contrário: poluem, fazem mal à saúde, incentivam o isolamento, geram egoísmo e são chatos (e símbolo de uma masculinidade demodê que eu desprezo).
Não vejo, portanto, como demonizar as ciclovias. A não ser que... - (e eis uma ideia em que eu tenho cada vez acreditado) - ...impere a cretinice. No império da cretinice não há direito à cidade.
Por cretino entendo
1) as pessoas que só consideram um ou outro aspecto de um contexto enorme (que, diante do um Plano Diretor do nível do recém-aprovado em São Paulo, acham a sua vaga de garagem importante);
2) as pessoas que se fecham em um conceito e não abrem mão (você já tentou convencer um idoso teimoso de que a fila é preferencial e não exclusiva?);
3) as pessoas legalistas (leis são feitas por pessoas para serem cumpridas - e para serem superadas);
4) as pessoas pelegas (para quem as máximas autoridades são autoridades máximas - seja o chefe, o policial, o pai, o delegado, o padre); e
5) as pessoas ranzinzas, impacientes, intolerantes, ultrapassadas (resumindo, as que não suportam não ter controle).
Eu moro no Centro. Com poucas excessões, meus vizinhos são cretinos. Temem (e não se comovem), por exemplo, com o menino-passarinho, para citar apenas o último caso de visibilidade.
A esperança, ainda bem, sobrevive nas brechas, na resistência do convívio, na tolerância, em usar e defender as ciclovias e os espaços públicos todo dia, sempre, incansavelmente. Vive em pequenos momentos como este, após a Festa Junina do Minhocão de 2012:

(Nota mental: olhar para esta foto, enquadrar, colocar como plano de fundo - isso faz respirar melhor o ar poluído dessas bandas)
*
Em tempo, um último argumento que tenho ouvido muito: "O problema dos transportes de São Paulo não será resolvido com a bicicleta". Não será mesmo.
Será resolvido com a mudança de lógica do trabalho. Você que lê este post, sinceramente, precisaria estar aí todos os dias sentado na sua baia do escritório ou poderia evitar o deslocamento pela cidade e trabalhar em casa (ou outro lugar humano)? Assunto para um próximo post.
MAIS DIREITO À CIDADE NO BRASIL POST:
Fonte: Blog no Brasil Post
Depois de muitos anos tomando fina dos carros, sendo xingado e até expulso do prédio pela síndica (porque "bicicleta só serve para sujar elevador"), levando fechadas e buzinadas na orelha e colocando a vida à prova (mas perseverando porque, sim, tenho a convicção de estar fazendo a coisa certa), eu e centenas de ciclistas temos 10% de algumas ruas do Centro de São Paulo para circular. \o/ Essa faixinha vermelha chama-se ciclovia, algo que no Brasil não se vê, não se come, só se ouve falar.
Pois elas chegaram e começou o chorume-tira-esperança-de-qualquer-mortal-pensante. ede-globo/bom-dia-sao-paulo/v/moradores-e-comerciantes-reclamam-de-implantacao-de-ciclovias-em-ruas-da-capital/3530273/" target="_hplink">Comerciantes reclamando. Motoristas reclamando. Moradores reclamando. Senhorzinhos reclamando. Associações reclamando. Jornalistas reclamando. Chamando a polícia, fazendo abaixo-assinado, acionando o Ministério Público.
Primeiramente: vão todos à merda! (#prontodesabafei)
Segundo. 400km de ciclovias foi promessa de campanha do prefeito Fernando Haddad, eleito democraticamente. Que bom, ele está cumprindo.
Terceiro. Em 4 anos, 185 ciclistas morreram em São Paulo e outros 3.200 foram internados depois do atropelamento pelos companheiros de 1 tonelada (os carros amáveis e gentis).
Quarto. Ciclovias são o símbolo de cidades abertas. Desde o início dos anos 1960, em que grupos como os Provos em Amsterdã defendiam o fechamento do centro da cidade para carros, até Bogotá nos anos 1990-2000, em que os prefeitos Antanas Mockus e Enrique Peñalosa fizeram uma revolução urbanística privilegiando a bicicleta. Como diz Chris Carlsson, bicicletas são uma das "nowtopias", as "utopias do agora".
Quinto. Bicicletas não poluem, fazem bem à saúde, incentivam a convivência, geram pertencimento e são divertidas. Carros são o contrário: poluem, fazem mal à saúde, incentivam o isolamento, geram egoísmo e são chatos (e símbolo de uma masculinidade demodê que eu desprezo).
Não vejo, portanto, como demonizar as ciclovias. A não ser que... - (e eis uma ideia em que eu tenho cada vez acreditado) - ...impere a cretinice. No império da cretinice não há direito à cidade.
Por cretino entendo
1) as pessoas que só consideram um ou outro aspecto de um contexto enorme (que, diante do um Plano Diretor do nível do recém-aprovado em São Paulo, acham a sua vaga de garagem importante);
2) as pessoas que se fecham em um conceito e não abrem mão (você já tentou convencer um idoso teimoso de que a fila é preferencial e não exclusiva?);
3) as pessoas legalistas (leis são feitas por pessoas para serem cumpridas - e para serem superadas);
4) as pessoas pelegas (para quem as máximas autoridades são autoridades máximas - seja o chefe, o policial, o pai, o delegado, o padre); e
5) as pessoas ranzinzas, impacientes, intolerantes, ultrapassadas (resumindo, as que não suportam não ter controle).
Eu moro no Centro. Com poucas excessões, meus vizinhos são cretinos. Temem (e não se comovem), por exemplo, com o menino-passarinho, para citar apenas o último caso de visibilidade.
A esperança, ainda bem, sobrevive nas brechas, na resistência do convívio, na tolerância, em usar e defender as ciclovias e os espaços públicos todo dia, sempre, incansavelmente. Vive em pequenos momentos como este, após a Festa Junina do Minhocão de 2012:

(Nota mental: olhar para esta foto, enquadrar, colocar como plano de fundo - isso faz respirar melhor o ar poluído dessas bandas)
*
Em tempo, um último argumento que tenho ouvido muito: "O problema dos transportes de São Paulo não será resolvido com a bicicleta". Não será mesmo.
Será resolvido com a mudança de lógica do trabalho. Você que lê este post, sinceramente, precisaria estar aí todos os dias sentado na sua baia do escritório ou poderia evitar o deslocamento pela cidade e trabalhar em casa (ou outro lugar humano)? Assunto para um próximo post.
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