Após 5 anos, minha ‘sakura’ finalmente floriu

No meio de tantas guerras, vamos falar de flores? Neste final de semana (2 e 3 de agosto), acontece na zona leste, em São Paulo, a 36ª Festa da Cerejeira do Parque do Carmo. É uma oportunidade imperdível de vivenciar aqui, do nosso lado do mundo, o Hanami: a antiga prática japonesa de reunir amigos, família ou mesmo colegas de trabalho em um piquenique sob uma sakura em flor.

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Publicação by FESTA DA CEREJEIRA DO PARQUE DO CARMO.



Mas atenção: é só neste sábado e domingo. No próximo final de semana, já era! Do momento em que os brotos da sakura desabrocham até a queda das flores e o surgimento das folhas verdes não passa do que uma semana, no máximo dez dias.

Justamente por durar tão pouco, ela é um símbolo da natureza efêmera da vida, um aspecto importante da cultura japonesa associado à influência budista e ao conceito de impermanência chamado mono no aware. O súbito desabrochar, a extrema beleza das flores que vão do branco ao rosa intenso e sua morte rápida estão associados à mortalidade.

Para instigá-los a ir até o Parque do Carmo, conto como descobri esta árvore maravilhosa e e me apaixonei por ela.

Meu Hanami particular aconteceu em 21 de junho, no primeiro dia de inverno, quando a árvore de cerejeira que plantei em meu sítio no Vale do Paraíba há 5 anos ficou coberta de pequenas flores cor-de-rosa.

cerejeira

Acima, a sakura assim que desabrochou em 21 de junho e o pointer Menino.

cerejeira

Duas semanas depois, a árvore já coberta de folhas verdes e o labrador Sossego (acima).


Tudo começou há cerca de dez anos atrás quando fiz uma viagem para o Japão durante o outono. Com as quatro estações bem definidas, o Japão fica todo coberto de folhas vermelhas, alaranjadas e amarelas durante o mês de novembro.

Durante aquela viagem, uma das melhores que fiz em minha vida, ouvi falar pela primeira vez do estação das sakuras, quando as milhões de cerejeiras existentes em todo o arquipélago nipônico florescem no intervalo de apenas algumas semanas. Acompanhar o efêmero fenômeno do florescimento dessas árvores é uma mania nacional que se repete a cada ano há vários séculos.

Em 2009, decidi ir ao Japão durante a primavera e bolei um roteiro meticulosamente pensado para admirar as sakuras desde o primeiro dia de seu florescimento até o final.

A cerejeira, árvore de clima temperado, costuma florescer quando o primeiro calor da calor da primavera se anuncia. Por isso, as flores desabrocham primeiro nas regiões ao sul em meados de março e, nas semanas seguintes, vão ganhando o arquipélago, terminando em Hokkaido, ilha ao norte, já perto do início do verão. Além da latitude, também a altitude de cada região influencia o momento do florescimento.

Em 20 de março (dia do meu aniversário) daquele ano, desembarquei em Tóquio e fui direto para Nagasaki, na ilha de Kyushu, uma das ao sul do arquipélago (Okinawa é a setentrional, já quase nos trópicos), onde imaginei que veria as primeiras flores.

Enganei-me. Ainda fazia bastante frio, as árvores estavam com os galhos nus e dava pra ver os brotos, mas eles estavam bem fechados. No dia 24, durante uma viagem de trem, li num jornal que a Nacional de Meteorologia havia anunciado oficialmente o início da estação da sakura no dia anterior e que as primeiras flores haviam sido vistas... no Parque do Palácio Imperial, em Tóquio!

Confesso que fiquei com medo de ter errado no roteiro, mas tive fé e segui em frente. No dia 26 de manhã, quando visitei o castelo de Matsuyama, na ilha de Shikoku, vi minha primeira cerejeira em flor! Foi emocionante, mas foi apenas um aperitivo.

O banquete aconteceu mesmo em Kyoto, a antiga capital imperial do Japão, repleta de templos, castelos, palácios, canais ladeados de árvores, parques e bosques. Durante cerca de uma semana me esbaldei de tanto admirar as sakuras em flor (veja galeria de fotos no final deste post).

Em seguida fui aos Alpes japoneses, em Matsumoto e Takayama (norte de Tóquio), onde por causa da altitude os brotos seguiam bem cerrados. Terminei a viagem em Tóquio, em 15 de abril. Fazia uma visita ao Museu Metropolitano de Arte quando vi, pela janela, uma nuvem de partículas brancas que parecia formada por flocos de neve.

Fascinado, saí ao ar livre e percebi que eram as últimas flores de cerejeira levadas pelo vento. Dos mesmos brotos de onde elas tinham surgido, agora despontavam minúsculas folhas verde-claro que, em pouco tempo, cobririam toda a árvore.

Naquele momento, tive a confirmação de que meu projeto de ver todas as fases do florescimento das sakuras havia sido bem-sucedido. Tinha visto árvores de cerejeira antes de elas florirem, no início, no auge e no final.

Feliz, era hora de voltar pra casa, do outro lado do mundo. Mas a história não termina aí. Já em São Paulo, escrevi uma longa reportagem sobre a viagem ao Japão, publicada no jornal O Estado de S.Paulo.

No dia seguinte, recebo o telefonema de um senhor com sotaque italiano. Ele havia lido a reportagem, contou-me que tinha centenas de cerejeiras em seu sítio perto de Cotia, próximo a São Paulo, e me convidou para um churrasco no sábado seguinte, em meados de junho.

Aceitei o convite e, assim, conheci Vittorio Riccitelli, imigrante italiano que chegou ao Brasil fugindo do fascismo durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou por anos na Companhia Paulista de Estradas de Ferro e se tornou empresário do setor automotivo.

Após décadas em nosso país, Vittorio se tornou e brasileiro, mas não perdeu o sotaque de sua terra natal. Conheci sua linda família e seu incrível bosque de cerejeiras. Saí de lá com mais de 40 mudas no carro. Plantei todas elas no sítio, mas apenas uma sobreviveu.

Neste ano, em pleno solstício de inverno (o dia curto e a noite longa do ano), minha sakura finalmente floresceu. Belo presente, Vittorio!

Fonte: Brasil Post