Cai um tabu: robô supera humano em reconhecer faces

A Marilyn de Andy Wharhol; cientista usou fotos de famosos para criar programa (Imagem: divulgação)
UM ESTUDO PUBLICADO por uma dupla de cientistas de computação chineses sem muito barulho acaba de derrubar um tabu da inteligência artificial. Pela primeira vez, um computador conseguiu superar os humanos na tarefa de reconhecer faces, relatam os autores do artigo que descreve a façanha.
A maneira com que GaussianFace, o software criado pelos autores Chaochao Lu e Xiaoou Tang, da Universidade Chinesa de Hong Kong, atingiu essa meta é interessante por si só. Antes de falar sobre isso, porém, cabe explicar por que o trabalho deles (descrito num artigo ainda sem revisão independente) tem tudo para ser um marco se for confirmado por outros cientistas.
A inteligência artificial é um campo de pesquisa fascinante, mas também uma fonte de decepção para incautos, que entram na área cheios de idéias e saem cheios de frustrações. O ícone experimental disso é o do teste de Turing, no qual um computador precisa se fazer passar por humano numa dada tarefa. Há muitas versões do teste, e poucas são aquelas em que realmente um robô já é capaz de bater um espécime de Homo sapiens.
Uma divisão particularmente difícil da inteligência artificial é aquela que busca dar a computadores e capacidade de reconhecer formas e padrões com a mesma sofisticação que o sistema visual humano. Ao contrário do que muita gente pensa, a comparação das retinas de nossos olhos com uma CCD o sistema de captação de imagens de uma câmera eletrônica não se sustenta. O olho dos mamíferos e nosso sistema de processamento de imagens são muito, muito, muito complexos do que qualquer câmera.
A neurociência começou a se dar conta disso com os primeiros experimentos de Torsten Wiesel e David Hubel, em 1959, mostrando que o cérebro possui circuitos específicos para reconhecer formas (diferenciando, por exemplo, linhas horizontais de verticais). Desde então, cientistas enumeraram diversos mecanismos cerebrais associados a padrões específicos de visão. O notável talvez seja a chamada área facial fusiforme, descoberta por Justine Sergent e Nancy Kanwisher. É um pedaço do cérebro especializado em detectar faces.
Emular o funcionamento desses mecanismos orgânicos porém, sempre foi um desafio, afirmam Chachao e Xiaoou [pausa para os ocidentais rirem da combinação de nomes]. Segundo os cientistas, humanos têm em média uma taxa de acerto de 97,53% em reconhecer fotos de fisionomias que já lhes foram apresentadas. O DeepFace, o assustador sistema de reconhecimento facial do Facebook, tinha chegado quase lá, mas empacou na marca de 97,25%. Agora, o GaussianFace finalmente ultrapassou esse limite, atingindo 98,52%.
O novo programa foi construído sobre um banco de dados de 13 mil fotos retratando 6.000 diferentes celebridades. O programa localizava as faces automaticamente e as recortava em uma imagem de 150 por 120 pixels, uma resolução supreendentemente pobre, mas que otimiza o poder de processamento do computador responsável por rodar o algoritmo. Depois, o software recortava esses pedaços ainda em fragmentos de 20 pixels que se sobrepunham uns sobre outros. A interação entre esses, computados como uma média, é que geravam a “assinatura” de cada face na memória do computador. Testado no banco de dados, o Gaussian Face finalmente superou os humanos.
Pessoalmente, acho que o impacto social desse tipo de tecnologia, para o bem ou para o mal, ainda nem começou a desabrochar. Possivelmente terá aplicações impactantes do que simplesmente “etiquetar” fotos de amigos no Facebook. Imagine, por exemplo, o tipo de ferramenta de vigilância que pode ser construída sobre um algoritmo como o do GaussianFace. Futurologia à parte, acho que é preciso reconhecer que, desta vez, a inteligência artificial conseguiu romper uma barreira que não era nada trivial. O que pode ser macabro em um teste de Turing do que um computador que reconhece você e te chama pelo nome?
Fonte: Teoria de Tudo