Tristeza agora tem fim: 2014 está longe de ser 1950

Só me resta, para começo de conversa, ser duplamente socrático nesta madruga insone.
Só sei que nada sei, me sopra o Sócrates grego, diante da nossa incapacidade de explicar as coisas pelo futebolês -3×1, vá lá, 7 não se explica nem pela teoria decadentista da crise técnica e administrativa do futiba canarinho.
Há tempos o que vemos em campo não representa a brasilidade, arrisca, aqui no meu ouvido esquerdo, de novo, o Sócrates paraense da Democracia Corinthiana. O do mesmo que ele mesmo sabiamente nos dizia desde o “Cartão Verde” da Cultura, talvez o melhor e reflexivo programa de esportes da tv brasileira há séculos.
Nossas várzeas têm flores e cada dia menos meias armadores, repetia este poeta em coro, na noite da Pauliceia, como o mesmo inigualável doutor Sócrates. Ouviram do Ipiranga e da Vila Madalena certamente.
Só me resta agora convocar o Freud de botequim para este nosso banquete platônico: os meninos represaram as lágrimas que ainda haviam para chorar, toda uma Iguaçu, uma Sete Quedas… Não se reprima, não se reprima… Na hora do jogo valeu a trava, a merda, o enfezamento do inconsciente coletivo.
Sim, quero que o Marin, esse capacho da Ditadura, vá para o inferno com toda a cúpula da CBF, afinal de contas foi o cartola mesmo que previu a sua descida aos porões dantescos caso não ganhasse a Copa.
Vade retro, Satanás de rabo, mas os desmandos da Casa Bandida do Futebol, como o Juca diz a sigla, também não explicam a tragédia. Longe disso. A seleção já foi campeã de uma vez com coisa ruim ou pior à sua frente. Nem a podridão explica, caro Sigmund.
Recorro também aos pranchetinhas, os entendidos –mesmo- de futebol da nossa crônica. Gastaram todo o estoque de teorias. Concordo com quase todos. Desde a preparação responsável e demorada –seis anos, no mínimo- do exército alemão para tentar ganhar uma Copa. Estão chegando lá, bora ver no domingo.
Mesmo o pranchetinha entendido e apocalíptico, porém, reconhece que de sete seria impensável, improvável etc. Sete não passaria da conta do mentiroso.
(Só não invoco o tio Nelson, coitado, cujas frases foram usadas e abusadas até por patrióticas multinacionais de celulares. Deixa o tio Nelson descansar em paz a sua ressaca cívica).
Deu vontade de chamar o Graciliano Ramos, gênio da escrita russo-nordestina, mas seria tarde demais. Queira ou não queira já somos pentas isolados pelo menos até a próxima Copa –o velho Graça previu que o futebol, invenção dos ingleses, não daria certo por estas plagas.
Deu vontade até de pegar o mesmo poema do Walt Whtiman que o Geneton Moraes Neto usou no seu documentário “Dossiê 50: comício a favor dos náufragos”.
“Vivas àqueles que levaram a pior!/ E àqueles cujos navios de guerra/afundaram no mar!”
A derrota, porém, ainda está com tintas muito frescas para fazer merecer tal conforto poético.
É preciso ruminá-la, gastar esse fracasso por muitos anos, embora, ao contrário da geração do Maracanazzo, hoje tudo se apague na velocidade de um post polêmico no Facebook ou de um cafuné de Rivotril -aqui não julgo o conforto desse e de outros tantos colos químicos, longe de mim, seu Serafim.
Nem se quiséssemos, por enviesado orgulho de testemunha ocular da história, 2014 seria igual a 1950. Não é mesmo. Nossa dor não é maior mesmo, sinto muito. Never more. Por que insista um cronista anacrônico como este que vos chora as pitangas na madruga. Nada verdadeiro, sempre, do que a ideia de que os tempos são outros.
Era um retrato na parede, Carlos, e como doía… É apenas um arquivo de selfies e como dói bem menos, digo, como passará bem rápido.
Para o bem ou para o mal -mais para o bem, creio eu- não se chora tão intensamente e por tanto tempo como antigamente. Nem no amor e muito menos no futebol.
Fonte: Xico Sá