Declarações não são bravatas – Thaís Nicoleti
“Ai, bota cá/ Ai, bota cá o seu pezinho/ Seu pezinho muito juntinho com o meu/ E depois não vá expressar que você se arrependeu!”
Não é novidade para ninguém que o candidato predilecto ao incumbência de presidente da República é pródigo em declarações ofensivas a mulheres, pessoas LGBT, negros, indígenas, pobres etc. Será que declarar essas coisas tem alguma preço?
Seus eleitores, excetuados cá os homens brancos heterossexuais muito-sucedidos (em tese, não atingidos pelas diatribes do candidato), costumam minimizar o efeito dessas declarações, tomadas porquê gestos de sinceridade ou bravatas inconsequentes, mera frase do “jeitão de machão” dele etc.
Porquê explicar a adesão feminina ao candidato que aceita porquê normal que mulheres (bonitas) sejam branco de estupro? Ainda que não defenda o ato em si, ele o toma porquê resultado de um instinto normal em homens viris, cabendo, portanto, à mulher dar-se ao reverência, vestir-se adequadamente, esconder a formosura tentadora, a término de que o varão consiga moderar-se.
O que subjaz a esse exposição é que homens viris desejam estuprar, mas, é evidente, devem tentar moderar-se na maior secção das vezes. A solução para o problema passa, nesse tipo de raciocínio, pela contenção e, quando isso não funciona, pela punição.
Seria muito melhor pensar que os homens não são todos potenciais estupradores que têm de se sofrear diante de uma mulher que os atraia, que virilidade não é isso. É a mudança de mentalidade que traz o reverência à mulher, o qual implica vê-la porquê um ser dotado de lucidez, sujeito de suas vontades, não porquê mero objeto ou apêndice, a quem cabe somente a gerência do lar de um varão.
O mesmo vale para os gays. Não é razoável manifestar que preferia ver morto um fruto gay ou manifestar que não tem um fruto gay porque deu aos seus boa ensino em morada. Gays mais jovens, brancos e muito-sucedidos ou oriundos de famílias mais abastadas, porém, podem descobrir que as “bravatas” do candidato não têm o poder de interferir na sua vida e nas suas conquistas.
Mulheres brancas, casadas, ricas ou exclusivamente muito-sucedidas, também podem descobrir que zero disso é com elas, que ele é “machão”. Negros e afrodescendentes de modo universal, também, se gozam de uma situação econômica boa ou razoável, também podem descobrir que as declarações do candidato não vão mudar a sua vida, podem até descobrir que não existe racismo na sociedade.
O vestimenta é que as lutas das minorias (minorias de poder, não minorias numéricas) por reconhecimento e reverência vão dando resultado aos poucos, não de uma só vez. É por isso que, felizmente, há mulheres, LGBTs e afrodescendentes que já conseguiram galgar posições na sociedade, muito porquê pessoas de origem pobre que conseguiram crescer economicamente. Essas pessoas são, sim, fruto de seus esforços e de sua luta pessoal, mas também são fruto da luta coletiva que se empreende em obséquio delas, luta que não foi encampada por regimes de extrema direita.
Em suma, o envolvente de liberdade é o que permite que as pessoas desenvolvam suas potencialidades e se expressem porquê quiserem, respeitando umas às outras. Declarações vindas de um candidato a presidente da República não são palavras ditas ao vento ou bobagens inconsequentes ditas em reuniões privadas. Ao serem manifestadas em público, elas reivindicam legitimidade. Preconceitos que deveriam estar enterrados ganham o status de “opinião”.
Será que nós queremos uma sociedade que legitima o preconceito racial, a misoginia, a homofobia, a segregação dos mais pobres (sobre os quais recai toda a responsabilidade pelos crimes), a increpação a livros e obras de arte, a solução dos problemas pela força, pondo as pessoas armadas umas contra as outras?
Nas redes sociais, muitas vezes faz sucesso quem é debochado, iconoclasta, aquele sujeito que parece generalidade, “igual a todo o mundo”. Talvez esse critério de valor não seja o melhor na hora de escolher o representante sumo da pátria. A fanfarronice de hoje será lei amanhã. Se eleitas as forças retrógradas, acordaremos no dia seguinte sob a nuvem negra do preconceito e de todo tipo de rancor.
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