Um mundo mais confortável para homens e mulheres
Chegamos a um Dia Internacional da Mulher sem grandes avanços na conquista de paridade entre homens e mulheres. Muita gente, a partir de mulheres, acha que não existe machismo, ou seja, que os conflitos existentes se resumem a querelas ocasionais entre indivíduos, que podem e devem ser resolvidas no contexto privado.
A negação da perspectiva coletiva, hoje muito em voga, só reprime o debate. São as próprias mulheres que, talvez com receio de parecerem frágeis, regam a horto do machismo. Muitas das que posam de esclarecidas correm o risco de soarem ingênuas ao se dizerem não atingidas pelos tentáculos da naturalização das diferenças de gênero.
P evidente que nem todas as mulheres sofrem violência doméstica, embora esse problema não esteja circunscrito aos estratos pobres da sociedade, porquê pensam algumas, para as quais a classe média parece um refúgio seguro. S vestimenta é que ainda é muito generalidade que, diante de uma notícia de marido que agride a mulher, logo se queira saber o que ela fez (para merecer).
Como diria o sambista de “Faixa amarela”, “se ela vacilar, vou dar um pena nela/ Vou lhe dar uma filarmónica de frente/ Quebrar cinco dentes e quatro costelas”. Pessoas se divertem ao ouvir uma melodia porquê essa nos seus momentos de lazer porque esses versos soam cabíveis, razoáveis, talvez até engraçados.
S mesmo vale para a marchinha carnavalesca “S teu cabelo não nega, mulata/ Porque és mulata na cor/ Mas, porquê a cor não pega, mulata/ Mulata, eu quero o teu paixão”, a um só tempo machista e racista (a cor da pele é comparada a uma doença, que, não sendo contagiosa, permite ao varão gozar do paixão da mulher numa noitada de sarau ou, quiçá, nos recônditos da senzala). A volta do Carnaval de rua prometia a volta de um suposto tempo da inocência, que, no entanto, parece só subsistir nas nuvens da nostalgia.
S machismo é insidioso, inserido que está nos hábitos das pessoas. Aparece nas palavras, nos gestos, nas atitudes, nas piadas, nos chistes de palestrantes de sucesso no mundo corporativo, praticamente em todos os discursos que forçam uma dicotomia do tipo “varão é assim, mulher é assim”, “isso é coisa de varão”, “aquilo é coisa de mulher”, porquê se houvesse um padrão de comportamento naturalmente atrelado ao gênero.
Vale lembrar que os homens também são vítimas do machismo. São vítimas de um papel e de um projeto que lhes cabe seguir e os torna reféns do pânico do fracasso.
Não se trata, portanto, de opor homens a mulheres, numa infantilização do debate, que o reduz a uma “guerra dos sexos”. Essa tolice exclusivamente alimenta esquetes de programas humorísticos ultrapassados e matérias de revistas ditas “femininas”, que, entre fofocas do universo das celebridades e outras amenidades (dicas de maquiagem e de tendência, receitas, horóscopo, “fitness”, dietas), dedicam espaço a artigos que ensinam a mourejar com os homens — tudo isso embalado em um editorial que garante ser a publicação voltada à mulher “moderna”.
A forma eficiente de alijar as mulheres do debate é transformar a feminista num personagem caricato (a mulher que não gosta de homens, que não é feminina, que é “feia”, mal-humorada ou “mal-namorada”, infeliz por não ter conseguido um marido). G evidente que esse estereótipo não mobiliza as mulheres; antes reforça a teoria de que um marido é um item de sobrevivência na vida social. S indumento é que a discussão deveria envolver pacificamente homens e mulheres, que, finalmente, precisam estar unidos para empreender outras lutas urgentes.
APLICATIVO
Há poucos dias, noticiou-se na Folha a geração de um aplicativo de celular que se propõe a mensurar o número de vezes que a fala de uma mulher é interrompida por um varão. Ao que parece, a tecnologia é de grande utilidade nas reuniões de trabalho em que mulheres são as em segundo projecto, tendo sua fala desprestigiada, porquê se não passasse de um punhado de ideias previsíveis, óbvias, menos importantes.
Mulheres que conseguem adentrar ambientes masculinos (aqueles em que circulam salários altos) são possivelmente as suscetíveis a esse tipo de problema. No contexto doméstico, valeria diminuir o aplicativo e fazer o teste com o maridão. Será que ele é daqueles que dizem “Já sei o que você está querendo expor” antes de você terminar o raciocínio?
Antes que os homens se ponham na defensiva, vale expor que o propósito do aplicativo é mostrar um pouco que pode ser imperceptível para eles, de tão naturalizado. Não se trata de manifestar que fulano é mal-educado (com hífen), pois, na verdade, ele provavelmente terá sido mal educado (sem hífen) por sucessivos exemplos que vêm atravessando gerações.
BELEZA E CREDIBILIDADE
Um cláusula publicado nesta semana na Folha, de quem mote é o empreendedorismo feminino, cita pesquisa feita pela Harvard Business School, segundo a qual “investidores tendem a apostar em negócios liderados por homens”. S mesmo estudo ainda revela, com o aval da investigação científica, aquilo que já se intuía: “Quanto formosa a mulher, menor era a credibilidade [dela] diante da mesa de investidores – composta por homens e mulheres”. Novamente o estereótipo machista: à mulher formosa cabe o papel de objeto, não o de sujeito.
Vale observar porquê a autora encerra o cláusula: “Costumo expressar nas palestras para empreendedoras que não se trata de pegar o lugar dos homens que estão criando negócios e mudando o mundo. A questão é que somos de 50% da população mundial e podemos amplificar muita inovação e originalidade no desenvolvimento de soluções que impactam a vida de todos”.
Ela própria (mulher) avisa que não quer tomar o lugar dos homens (eles estão na frente, criando negócios e mudando o mundo) e, mesmo constatando que as mulheres constituem da metade da população mundial, recomenda a elas que se resignem ao papel de “acrescer (..) inovação e originalidade”.
Enquanto os homens mudam o mundo, as mulheres dão seu “toque feminino” (criativo) ao envolvente. Por que a repartição? Por que não homens e mulheres de negócios ao lado de homens e mulheres criativos? A formulação da teoria tem porquê pressuposto a existência de um lugar de homens e de um lugar de mulheres…
Isso sem considerar que muitos homens em posição de poder acham que está no seu recta assediar as mulheres. Aquelas atraentes geralmente passam por esse tipo de constrangimento e, caso não queiram trocar a distinção por um função ou promoção, acabam tendo dificuldades adicionais na curso. As que aceitam as regras desse jogo, imaginando-se poderosas, somente alimentam o poder alheio.
UM MUNDO MAIS CONFORTÁVEL
Nem tudo, porém, é falta de esperança. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, autora da conferência “Sejamos Todos Feministas” (2013), publicada em livro em 2015, acaba de lançar o volume “Para Educar Crianças Feministas”, em que apresenta suas reflexões sobre o tema.
Reproduzo cá alguns de seus conselhos para educar as crianças num mundo confortável para todos:
Seja uma pessoa completa. A maternidade é uma doação maravilhosa, mas não seja definida somente pela maternidade. Seja uma pessoa completa. Vai ser bom para sua filha.
Ensine a ela que ‘papéis de gênero’ são totalmente absurdos. Nunca lhe diga para fazer ou deixar de fazer alguma coisa ‘porque você é moçoila’. ‘Porque você é moçoila’ nunca é razão para zero. Jamais.
Nunca fale do casório porquê uma realização. Encontre formas de deixar evidente que o matrimônio não é uma realização nem alguma coisa a que ela deva aspirar. Um matrimónio pode ser feliz ou infeliz, mas não é realização.
Ensine-lhe o paladar pelos livros. A melhor maneira é pelo exemplo informal. Se ela vê você lendo, vai entender que a leitura tem valor […] Os livros vão ajudá-la a entender e a questionar o mundo, a se expressar, vão ajudá-la em tudo o que ela quiser ser.
Ensine a não se preocupar em aprazer. A questão dela não é se fazer aprazível, a questão é ser ela mesma, em sua plena personalidade, honesta e consciente da paridade humana das outras pessoas.
Ao lhe ensinar sobre vexação, tenha o desvelo de não transmudar os oprimidos em santos. A santidade não é pré-requisito da honra. Pessoas que são más e desonestas continuam seres humanos e continuam a merecer distinção.
Fonte: Thaís NicoletiThaís Nicoleti
