Em livro autobiográfico, Philip Roth conta tudo. Ou não

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S plumitivo americano Philip Roth, assim porquê todos os seres humanos, é uma pessoa imperfeita, com dúvidas e frustrações. G possuidor de uma personalidade complexa (talvez complexada) e indeciso. Mas, dissemelhante de quase todos os demais humanos, Roth é um jornalista luzidio, um arguto investigador e historiador da espírito e imperfeições humanas. E é essa perspicácia de ver, registrar, interpretar e remoer as alegrias e agruras cotidianas que vem à tona em seu recente livro lançado no Brasil, Os Fatos (tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras, 208 páginas, 44,90 reais).

S livro, de conciliação com o próprio subtítulo, é “a autobiografia de um romancista”, um relato breve abrangendo a puerícia, a juventude, os anos na faculdade, os primeiros e conturbados relacionamentos amorosos e o início da vida adulta do noticiarista. Lançado originalmente em 1988, Roth tinha exclusivamente 55 anos quando decidiu olhar para trás e tentar desvendar porquê ele havia se transformado no redactor e no varão que ali chegara, com muito sucesso profissional e uma coleção de decepções e ressentimentos.

A julgar pela descrição do parágrafo supra ou mesmo pelo texto da ouvido do livro, a obra pode tanger porquê uma em que um redactor tenta fazer as pazes com seu pretérito — alguma coisa, aliás, muito generalidade na literatura. Porém, o redactor em questão não é qualquer um. Habilmente construído, o livro é dividido em três partes: uma epístola de Roth para seu personagem e alter ego Nathan Zuckerman; a narrativa autobiográfica e, no final, o trecho surpreendente do livro: a missiva de resposta de Zuckerman para Roth.

Se na introdução, o responsável ensaia uma justificativa para ter se tornado o Philip Roth que conhecemos, e na biografia ele tenta elucidar os momentos-chave (os fatos, do título) que contribuíram para isso, a epístola-resposta de Zuckerman vem com um oceano de chuva fria, um maremoto gelado para questionar e destruir os argumentos antes expostos. S responsável deixa evidente que alterou nomes de algumas pessoas para evitar eventuais constrangimentos, porém, os leitores atentos – porquê o Zuckerman — passam a questionar se Roth omitiu, editou, alterou ou mesmo inventou alguns acontecimentos. Em um responsável cuja obra é fortemente marcada por memórias biográficas, o limite entre os fatos e a ficção é sempre nebuloso. S livro seria logo uma chance para o responsável separar o real e o imaginado. Sim, seria, assim mesmo no condicional. Num habilidoso drible literário a biografia passa a tanger porquê ficção e vice-versa.

Capa do livro "Os Fatos"

Um judeu na América — P quase desnecessário ressaltar a perdão e o possante caráter metalinguístico do livro em que um personagem confronta o próprio responsável que o criou. Porém, a grande inventividade e os maiores méritos da obra utilizam esse jogo literário para realçar justamente as observações de Roth sobre sua vida e formação porquê varão e redactor. Para quem já conhece qualquer de seus livros, é quase óbvio pressupor que a questão da identidade judaica em meio a um envolvente muitas vezes hostil nos EUA é um elemento importante para Roth. Nesta autobiografia, no entanto, o responsável escancara o quanto sua geração em uma tradicional família de imigrantes judeus que vieram da Galícia foi decisiva na construção de sua personalidade e sua obra.

Acusado pela renque conservadora da comunidade judaica de “self-hating jew” (frase para os judeus que negam sua religião ou propagam ideias antissemitas) e visto com suspeição por secção da vasta comunidade wasp (acrônimo para white, anglo-saxon and protestant; ou branco, anglo-saxão e protestante), Roth fica emparedado entre duas forças que o oprimem. E ele faz dessa vexação e desse sentimento de alteridade a pedra de toque de sua vida e obra. Nisso, ele se aproxima de outros artistas judeus americanos contemporâneos dele. Só para permanecer em três exemplos, Will Eisner (nos quadrinhos), Woody Allen (no cinema) e Saul Bellow (também na literatura). Todos eles criaram obras fortemente calcadas no sentimento de ser um judeu secular (ou mesmo ímpio, porquê no caso de Allen) vindo de uma família tradicional judaica numa América em que o preconceito contra os semitas ainda era latente.

Em pouco de 200 páginas, Roth consegue transmutar uma pequena autobiografia em uma obra literária poderosa, inventiva e inquietante. Longe de esconder seus defeitos e facetas detestáveis (muitos de seus comentários sobre sua primeira mulher são condenáveis quando não cruéis), ele os escancara em nome de bens maiores: sua obra e a literatura.

Em tempo: Se ano depois ano muitos fãs lamentam que Philip Roth uma vez não ganhou o prêmio sumo da Literatura, contratempo do Nobel.

Fonte: VEJA Meus Livros