Dylan mereceu: é evidente que letras podem ser literatura

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Maria Carolina Maia

Pode parecer excesso a confrontação da secretária permanente da Academia Sueca, Sara Danius, entre Bob Dylan e os poetas Homero e Safo, dois gigantes da Antiguidade Clássica. Assim porquê a conformidade, feita por muitos, entre o novo Nobel de Literatura e os trovadores da Idade Média. Entre eles, não se interpõem somente milênios de intervalo, porquê também diferentes escolas e tradições literárias. Mas, goste você ou não da voz e do estilo de Dylan, uma coisa não dá para negar: ele entende, sim, do riscado.

Mais do que expor que Homero e Safo “escreveram textos poéticos para serem escutados e interpretados com instrumentos”, o que fez numa tentativa clara de justificar a surpreendente escolha da Academia Sueca em Estocolmo, Sara Danius poderia exclusivamente se ater ao essencial. A obra de Dylan é carregada de trova.

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A termo, aliás, vem da mesma Grécia de Homero: trova deriva do verbo poiein, que significava gerar ou fazer de maneira diversificada – diferenciada. Do verbo poiein, se derivou o adjetivo poietikos – no feminino, poitiké. Com um empurrãozinho da filosofia de Platão e Aristóteles, dois dos maiores pensadores da Antiguidade, o verbo e o adjetivo se aproximaram das artes, assim porquê da mimesis (a imitação do real) e da techné (o conjunto de conhecimentos empregado nesse fazer artístico).

Dylan é, sem incerteza alguma, um compositor habilidoso e dotado do saber necessário para fabricar. A escolha cuidadosa das palavras, o série da frase, o ritmo e a musicalidade, aliás inerentes à trova, a construção de imagens poderosas, a pincelada precisa de personagens, a profusão e o desdobramento dos sentidos, além do tom por vezes heróico. Tudo isso Dylan domina. São provas dessa habilidade trechos porquê “I’ve stepped in the middle of seven sad forests, / I’ve been out in front of a dozen dead oceans”, de A Hard Rain’s A-Gonna Fall, e “The line it is drawn / The curse it is cast / The slow one now / Will later be fast / As the present now / Will later be past / The order is / Rapidly fadin’ / And the one now / Will later be last / For the times they are a-changin'”, de The Times They Are A-Changin’ (clique e para ver toda a letra e a sua tradução).

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Alguém pode expor que ele não obedece a metrificações canônicas porquê a do soneto. Mas o mundo já passou pelo modernismo e pelas vanguardas, por sinal há um século, para que esse tipo de exigência – muito porquê a das rimas – ainda se sustente.

Não é o vestimenta de ele ser músico, portanto, o que invalida o prêmio. S Nobel, enfim, ainda não avalia frases musicais. Dylan é um letrista genial, da mesma forma porquê há letristas fracos e escritores terríveis — e letristas bons que são maus escritores, caso do brasílico Paulo Coelho. Qual o problema, logo, de se entregar um prêmio literário a um compositor cuja música parece exclusivamente servir de tecido de fundo à sua trova? As críticas – porquê a do escocês Irvine Welsh, que classificou a decisão da Academia Sueca porquê resultante da “nostalgia deslocada, saída das próstatas antiquadas de um grupo de hippies senis” – cheiram a inveja e oportunismo.

P evidente que o Nobel de Literatura poderia ser outorgado a outra pessoa. Todos os anos, é assim. Philip Roth, o maior responsável americano vivo, Ian McEwan, o exímio prosador britânico, ou o nipónico Haruki Murakami, pop e inventivo, poderiam, cada um, ter vencido em 2016, em 2015, em 2014. Selecionar é necessariamente excluir. Diferentona porquê foi, a escolha deste ano deixou, no entanto, ocasião uma brecha para as críticas. E elas vieram dos ressentidos.

Como se diz nas redes sociais, aceita que dói menos.

Fonte: VEJA Meus Livros