Americanos: Surpresa nenhuma



Daí estamos prestes a fechar com sucesso um grande evento no País. Foi assim com os Jogos Panamericanos no Rio, em 2007, com a Copa do Mundo em 2014 e, olha só... Não foram zika, nem violência do Rio, nem poluição da Baía de Guanabara os assuntos dominantes. Ao contrário, dominaram entre os assuntos a nossa alegria e nosso engajamento ao recebermos um dos maiores e melhores eventos do mundo.

Daí uns nadadores setentrião-americanos vieram cá tirar uma com a nossa face. Foram idiotas num posto de gasolina, inventaram um assalto fake, um deles foi embora. A nossa polícia descobriu que era tudo pataratice, porque cá a gente diz que a moca tem short leg. Tiveram que comportar e pedir desculpas. S Comitê Olímpico dos EUA pediu desculpas. S Ryan Lochte pediu desculpas. S Comitê do Rio aceitou desculpas, mas assim...

Daí que muitos foram os americanos a ir no Twitter falar de nossas mazelas, alguma coisa porquê "deixa eles, vão cuidar de zika, de violência do Rio, de poluição da Baía de Guanabara". Tipo: cuidem dos problemas de vocês e nos deixem em sossego pra enchermos o saco de alguns de vocês, enfim somos muito melhores, primeiromundistas, ricos, cheios de medalhas, estamos aí é pra tirar vaga mesmo e ralar isso na face de vocês.

Daí eu fico imaginando: se fossem os nossos nadadores, estariam presos por lá. Obrigariam-nos a mandar o que já estivesse cá voltar pra lá.

"Na minha favela, ninguém rouba, ninguém estrupa." Falsa informação de transgressão é... Crime. Contra a gestão pública, com pena de seis meses a um ano de detenção ou multa. Tá no nosso Código Penal Brasileiro, válido para todos os que têm os pés tocando o solo do nosso país.

Pedir desculpa não paga multa nem é detenção. Eu nem sou tão fã do nosso padrão penal, mas ele existe com eficiência para muitos de nós...

Daí fui ler o "aceite" do Comitê Rio 2016 e tava lá que as desculpas estão aceitas, mas que a atitude provavelmente decepcionou aos brasileiros. Não, kiridos, decepcionou nam: eu mesmo tava só aguardando qual seria a dos americanos ou de qualquer dos países ditos desenvolvidos.

Achei que o tema "micos deles" pararia no do técnico francesismo - ou do repórter interpretativo de jornal, não sei a epílogo dessa história ainda - atribuindo pejorativamente nossa vitória no salto com vara ao candomblé. Mas não, tava pouco, tinha que ter uma zoa a .

Daí lembrei do porquê de eu já esperar por isso. Primeiro, cresci ouvindo Green Day dizendo que "don't wanna be an american idiot". Lembro vigorosamente de besteiróis americanos tais porquê American Pie e Todo Mundo em Pânico, descrevendo a luzidio produção do american way of life. Não foram jovens universitários que chamaram Janis Joplin de "o rosto mal-parecido da facul"? Então, normal.

Daí me vem à cabeça também que nossa classe média subida tem essa preocupação pelo way of life americano. Portanto, há vários exemplares iguaizinhos por cá. S índio Galdino e a moçoila Ana Lídia foram mortos por exemplares dessa classe de gente que se sente muito melhor que as demais, que nunca enfrentou qualquer dificuldade na vida, nem mesmo uma louça pra limpar. Deve ser ruim ter tudo. Deve ser limitador ter tudo. Quando você tem tudo, tudo é seu: as outras pessoas, os lugares que você frequenta, os outros países...

Daí preciso deixar muito evidente que a sátira é genérica, mas não generalista. Logo, não se aplica à toda a sociedade setentrião-americana, em universal muito querida e acolhedora. Taí o exemplo da Simone Biles, sendo linda e aplaudida a lot of (ósculo, fia! vc é foda!). P evidente que estou falando dos "ugly American", que acabam por queimar muito o filme da maioria deles, que devem morrer de vergonha alheia do que houve por cá.

Daí tem quem diga que a moçoila que não quis ajudar um rosto em Botafogo porque se recusou a falar em inglês com ele foi uma escrota. Sorry, não foi. Passei sufoco na França por não falar zero de galicismo, muito porquê eu que não me virasse pra ser entendido quando estive em Orlando pra ver se eu conseguiria transpor do lugar... Se ela não tivesse falado aquilo ao gringo, talvez ele nunca na vida pensaria sobre isso, e tenho absoluta certeza de que o gringo chegou aonde quis. Quem pensava que a moça era uma mal-educada agora sabe que as definições de escroto foram atualizadas neste incidente dos nadadores.

Daí pra fechar: além de todo o histórico que tracei cá pra manifestar, finalmente de contas, que não me surpreendeu em zero essa dos nadadores, fui desenredar que há entre os esportistas uma lista de "ugly americans" muito longa, longuíssima.

Então leste incidente foi exclusivamente um que, ao contrário do que propõe Ryan Lochte em seu pedido tosco de desculpas, não vai ser extinto em detrimento das medalhas de ouro. Tá lá na lista os membros americanos do revezamento 4 x 100 em Sidney: levaram ouro e, depois, foram dar voltinhas no estádio embrulhados com a bandeira americana e exibir músculos.

Diria que mentir sobre um assalto é muito micão, muito vergonha alheia. S top 1 da lista. Mas calma, camarada: qualquer outro ugly american vai eclodir em breve, relaxa. Basta dar tempo ao tempo.

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Fonte: HuffPost Brasil