A política não combina com a moral
Ao tomar conhecimento das reviravoltas na corrida eleitoral em Belo Horizonte, tive de voltar a um livro da idade do descobrimento do Brasil e é, pelo menos na minha visão, indispensável para quem quer entender a política: S Príncipe. Afinal, a sua principal prelecção é a de que o poder político não combina com a moral. Hoje, atribui-se a seu responsável, Nicolau Maquiavel, a frase “os fins justificam os meios” quando, na verdade, ele não teria dito isso; diz-se de “maquiavélico” o que é mal, planejado para prejudicar, quando, até onde consigo visualizar, não era essa a intenção que o poeta queria nos transmitir, ao contrário, ele estava na era do Renascimento e procurava perfurar nossos olhos para uma verdade cristalina: a política não é a arte do muito generalidade, porquê acreditava Aristóteles ou “a arte de governar os homens e governar as coisas, visando o muito generalidade, de convenção com as normas da reta razão”, porquê disse Tomás de Aquino.
Os homens são porquê são e não porquê deviam ser, ensinou Maquiavel para, a partir daí, escancarar as verdades que movem a sede do poder.
A partir do século XVI a igreja católica já não reinava absoluta com as verdades que lhe interessavam. Maquiavel ensinou que o governante tem de ser prático, calculista, fazer o muito lentamente e o mal de uma só pancada; se esforçar para ser estremecido, mas, se impossível, que seja temido... Odiado não, porque, nesse caso, os governados já não têm zero a perder e partem para o confronto. Hoje, a gente sabe que a sorte de muitos políticos tupiniquins é essa particularidade pacata dos brasileiros - não vivemos momentos sangrentos que forjaram grandes nações.
Outra prelecção maquiavélica: todo político tem de saber definir a hora de agir porquê varão e porquê bicho, neste caso poderoso porquê leão ou esperto porquê raposa. Esperto para, por exemplo, fazer uma confederação hoje e amanhã, se ela não convier, romper sem constrangimentos e seguir adiante. Cabe lembrar que S Príncipe não sugeria a prática rotineira da esperteza: naquele tempo, as questões em jogo eram sérias, porquê segurança e manutenção do território... Ainda assim, advertiu ele, só se pode ser impudico quando não há opção.
Impressionante porquê Maquiavel era um visionário. Seu principal livro foi publicado depois de sua morte e hoje, 484 anos depois, explica a sucessão em Belo Horizonte porquê nenhum observador político seria capaz: temos um príncipe, que mora no Rio, decide em Brasília e manda em e um monte de vassalos que, por paixão ou temor, obedecem. Claro que, porquê em toda regra, há raríssimas exceções. Uma delas, Alexandre Kalil, parece único com coragem para expressar a verdade: “Eles vão passando rasteira um no outro para, depois, juntos, passarem a rasteira na cidade”.
E a gente ainda pergunta por que não tem metrô, argola, saúde, cidade grande...
Da vontade de ouvir Zé Ramalho:
“Êh, ô, ô, vida de mancheia
Povo marcado
Êh, povo feliz!”
