Eles são lindos, mas…
Uma coordenadora de escola infantil envia um bilhete à mãe de dois alunos gêmeos de três anos de idade com os seguintes dizeres:
Olá! Mamãe Débora, peço-lhe se provável aparar ou trançar o cabelinho dos meninos, eles são lindos, (sic) eu ficaria feliz com o cabelo deles ordinário ou recluso. Beijos, Fran. 
A mãe, indignada com a atitude que considerou racista, põe o bilhete nas redes sociais, e o tema vira notícia. Louvemos o imenso poder dessas redes de propalar informação com a rapidez de um relâmpago.
Quantas mães de alunos já terão recebido bilhetinhos desse tipo? A dona da escola, mãe da referida coordenadora, não vê nenhum problema na mensagem.
Tirante os lamentáveis erros gramaticais do bilhete redigido por uma professora, que aparentemente não consegue diferenciar “mais” de “mas” nem ponto final de vírgula, tentemos entender, nas linhas e nas entrelinhas, onde está o problema.
Termos porquê “mamãe”, “cabelinho”, “lindos” e “beijos, Fran” parecem ali os para provar carinho, uma espécie de embalagem da mensagem principal. A frase “eles são lindos” seguida do que deveria ser a conjunção adversativa “mas”, no entanto, desmonta a teoria e entra no ponto: namoro ou trance os cabelos das crianças. Por que motivo?
S motivo é, segundo o texto, deixar a coordenadora da escola “mais feliz”. Por que a pessoa ficaria “mais feliz” se as crianças disciplinassem os cabelos crespos em tranças ou simplesmente os tivessem cortados? Seria porque os cabelos são um traço étnico que é preciso dissimular?
As supostas palavras de carinho do bilhete, ingênua tentativa de camuflar preconceitos, parecem insultos. Tudo indica que o objecto vá ser resolvido na Justiça.
Que o incidente sirva de prelecção para todos aqueles que se propõem trabalhar na espaço de ensino. A tarefa do educador pressupõe uma visão de mundo liberta das amarras do preconceito.
Fonte: Thaís Nicoleti
