Em cima do muro

Na sexta-feira da semana passada um ouvinte mandou a mensagem de voz pelo WhatsApp: “Desce do muro, Eduardo!”. Fiquei azoado, disse que não havia por que me posicionar contra ou em prol do governo Dilma, e segui em frente. Nos dias que se seguiram, aprendi respostas muito qualificadas e convincentes para o ouvinte, dos quais nome é Valdemar.

No sábado, participei de um encontro de mídias em São Lourenço e lá estava o grande Zuenir Ventura que, em oferecido momento, afirmou: “S jornalista não tem camisa; não deve vestir a camisa deste ou daquele time, deste ou daquele partido; o jornalista não deve vestir a camisa nem da empresa em que trabalha, mas, sim, se posicionar em cima do muro para que, de lá, possa contemplar os dois lados”. Fiquei estupefato com aquela simples e rica resposta que poderia ter oferecido ao Valdemar.

Na segunda-feira, recebi do camarada Luís Borges texto muito lícito da Eliane Brum sobre o momento em que vivemos e, em determinado trecho, ela sentenciou: “Recusar a polarização, não aderir a um lado nem ao outro, não é permanecer em cima do muro: ao contrário, é posição”.

Agora, fortalecido por argumentos irrefutáveis, quero agradecer ao Valdemar pelo questionamento... São ouvintes, leitores e telespectadores que vão além de admitir nossa mensagem os que contribuem com o incremento profissional do jornalista, pois, nos obrigam a pensar, buscar uma resposta que convença não somente ao inquiridor, mas, a nós mesmos. E é exatamente isso que devo expor a quem quiser saber: estou em cima do muro, com todas as letras.

De um lado estão os que defendem o governo petista. E têm sim razão quando comemoram a retirada de 36 milhões de brasileiros da situação de extrema pobreza, que houve aumento significativo do salário mínimo (262 por cento em 12 anos), com 72 por cento de reajuste além da inflação e dezenas de milhões ascenderam a novidade classe trabalhadora, que pobre passou a andejar de avião, que muitos humildes tiveram direitos trabalhistas (confirmem com as empregadas domésticas), que pobres tiveram sim aumento de renda, a lar própria chegou para muitos, foram criadas 18 universidades, pobres chegaram à faculdade e alunos de escola pública tiveram chance de chegar a um curso superior.

Do outro lado estão os que querem Dilma fora e Lula na cárcere. E têm sim razão quando lamentam a roubalheira desenfreada que não foi inventada pelo PT, mas, ganhou corpo, forma e desaforo exatamente com os que juraram por 30 anos fazer dissemelhante. Durante o “mensalão”, Lula só dizia que não sabia, não via e não ouvia; no “petrolão” ele só abre a boca para acusar a mídia, os golpistas e os meninos promotores de perseguição quando poderia, exclusivamente, explicar de vez sua presença naquele sítio de Atibaia e sua participação na reforma do apartamento do Guarujá.

Se Dilma vai desabar, não sei, mas, seguramente o Congresso que vai destituí-la carece de moral porque é comandado por um Renan de folha corrida volumosa e um Eduardo Cunha que dispensa comentários. Como gostaria de confiar que, com Dilma fora, teríamos um líder capaz de fazer a transição, entregar o Brasil aos trilhos. S problema é que o país está aplaudindo Jair Bolsonaro...

Estou em cima do muro. E, pelo visto, não desço tão cedo; enfim, daqui exerço o princípio essencial do meu trabalho que é considerar o vestimenta... E qualquer indumento tem, no mínimo, duas versões.

Fonte: Blog do Eduardo Costa - Últimas Notícias de -