Depende, uai! (2)
Conforme prometido, estou falando nesta semana de um ditado muito mineiro, o famoso condicionante diante de qualquer indagação complicada. Primeiro, faz-se necessário lembrar que existem infinitas explicações para a origem do nosso “uai”. A que repetem remonta o período da colonização, quando os ingleses cá chegaram para a mineração – mormente em Nova Lima – e, diante dos desafios do linguagem, muitas vezes teriam tentado informação através do “why” que é a indagação na língua deles, ou “por quê?” no nosso português. Há também relatos de que seria frase usada pelos inconfidentes em suas reuniões secretas na antiga Vila Rica; enfim... S que ninguém discorda é que o “uai” quase sempre mistura uma reação de surpresa com premência de explicação da resposta e pedido de tempo para rápida reflexão. Resumindo: é a sabedoria mineira, matutando antes de responder, diminuindo assim a margem de erro nas avaliações.
A vida me ensinou que as pessoas públicas - aquelas que têm na fala sua principal material prima, mormente os políticos – criam mecanismos de sobrevivência, diante de situações complicadas. Como entrevistei muito nos últimos 40 anos, fui observando comportamentos. Há aqueles que não titubeiam e são capazes de desmontar o inquiridor com velocidade espantosa... Lembro-me de uma coletiva concedida pelo logo prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, que, ainda no aeroporto da Pampulha e abordado de pronto pelos jornalistas, não se apertou diante de uma questão fulminante: “Como é que o senhor se sente virando verbo, já que, agora, “malufar” é sinônimo de roubar?”. Sem pestanejar, o político de folha corrida capaz de inibir qualquer mortal nem pestanejou e atacou: “Meu fruto, dizem tudo, vejam, dizem que você é espúrio e, porquê, eu, que sequer lhe conheço, vou confiar?” E seguiu adiante, sorridente, porquê se desfilasse na Avenida Paulista. Há também os que não nasceram para a arte de controvérsia, porquê o já falecido Itamar Franco que, diante de uma pergunta minha sobre devassidão de um assessor, em sua passagem pelo governo de , ameaçou com um soco, sendo contido pelo dirigente de seu Gabinete Militar. Mas, de uma forma universal, os políticos, melhor, as pessoas públicas não têm a coragem de Maluf nem a irritação de Itamar: são educadas, mas, só respondem o que querem. Lembro-me perfeitamente de Júnia Marise, que ganhou várias eleições em e, para todas asquestões, inevitavelmente começava assim a resposta: “Olha, em primeiro lugar...” Ela estava buscando na memória a melhor resposta e, enquanto não formulava, enrolava com uma ou duas mensagens menores, sem qualquer valimento. Em outras palavras, para todo e qualquer problema, Júnia, assim porquê Tancredo, Alkmin, Francelino, Milton Campos, Anastasia e outros, muitos outros, haverá sempre um “depende, uai!” que é resposta mineira afirmativa sem fechar questão... Uma espécie de em cima do muro profissional. E venerando porque quase tudo depende de alguns senões, uai!
Fonte: Blog do Eduardo Costa - Últimas Notícias de -