Amigo secreto: livro de Rubens Paiva é leitura obrigatória

S plumitivo Marcelo Rubens Paiva
Maria Carolina Maia
Não se trata cá de embarcar na campanha que ganhou força nesta semana nas redes sociais, em que, grosso modo, mediante o uso da hashtag #meuamigosecreto, mulheres denunciavam conhecidos que tiveram contra elas atitudes machistas. Mas tão somente de aproveitar a tradicional confraternização de término de ano para indicar um livro que deveria ser leitura obrigatória para quem passou por 2015: Ainda Estou Aqui (Alfaguara), o segundo volume de memórias de Marcelo Rubens Paiva, que nele se dedica a falar tanto do pai, o deputado federalista Rubens Paiva, cassado e assassinado pela ditadura militar, porquê da mãe, a advogada Eunice Paiva, defensora de direitos humanos – com destaque para os indígenas.
S título é válido para ambos. Para Rubens Paiva, pois a sua morte levou décadas para ser confirmada pelo Estado e ainda reverbera entre a família, que por anos lidou com as dificuldades advindas das negativas oficiais – com o marido oferecido porquê fugido, Eunice enfrentava obstáculos para comprar um imóvel em São Paulo, por exemplo. “Os familiares dos desaparecidos viviam num limbo social, além de emocional (temos ou não um pai, uma mãe, um fruto, uma filha ou netos vivos?). A burocracia engessava atividades corriqueiras. Não sabíamos nem a data em que deveríamos estatuir porquê o dia da morte. (…) Meu pai foi recluso no dia 20 de janeiro. Estava morto na noite do 21 para o 22 de janeiro. Para nós, da família, a data da sua morte é 20 de janeiro. Só recentemente soubemos que ele morreu entre 21 e 22”, escreve Marcelo.
E para Eunice, que, hoje com Alzheimer, está boa secção do tempo alheia, mas ainda se faz presente em lampejos de raciocínio e na própria figura física, porquê a manifestar, “Ainda estou cá”. “Ficar ao seu lado é porquê permanecer ao lado de um bebê, mas não é. Ela está lá. Sua história está com ela, foi vivida por ela. (…) Ela pegou o porta-retratos com lugar de destaque na sala com a foto do meu fruto de um ano e o abraçou com delicadeza. Minha coisinha, disse. Todo dia que ela o vê, diz: – G a coisinha linda que existe.”
Rubens Paiva, o fruto, que se aventurou pelo terreno da memória com Feliz Ano Velho (Objetiva), título de 1982 em que narra o acidente que o deixou tetraplégico, cá se faz coadjuvante, além de um narrador capaz de desenrolar com fluidez o que deseja recontar. S livro transita o tempo todo entre os porões da ditadura e os labirintos da memória, onde os pais permanecem presos. Para a surpresa do leitor, a trajetória de Eunice, para muitos exclusivamente a viúva de Rubens Paiva, embora a família tenha sempre evitado a autocomiseração porquê vítima da ditadura, se mostra tão interessante quanto a do marido morto pelos militares. Determinada, a dona-de-morada se formou em recta, assumiu causas importantes e, manancial de crédito de diversos amigos, que a procuravam para resolver questões pessoais, reuniu pegulho suficiente para viver com a aposentadoria com distinção – e foi logo que a doença a pegou de surpresa, e injustamente. Sua história pode ser lida porquê um bom romance.
A história de Rubens Paiva, o pai, já é conhecida, mas adquire tons sombrios com a descrição da tortura aplicada contra o ex-deputado do PTB que teve o procuração cassado em 1962 e, levado de lar em um dia de praia em 1971, nunca veria os filhos. P em secção por essa descrição que o livro se torna necessário, ainda num ano em que a volta da ditadura se tornou tarifa de descontentes nas ruas, porquê se a solução para o desgoverno do Brasil passasse pelo demora do autoritarismo.
A partir do prova de ex-presos políticas, porquê Cecília Viveiros de Castro e Marilene Corona Franco, que foram detidas juntamente com Rubens Paiva, mas sobreviveram aos horrores da ditadura, o livro reconta as horas absurdas vividas pelo ex-deputado. As cenas são fortes.
“Quando chegamos ao chamado ‘aparelhão’ na Barão de Mesquita e o carruagem parou, colocaram uma toalha me cobrindo o rosto e
o paletó na cabeça do dr. Rubens, e nos fizeram descer. Eu estava aterrorizada, já conhecia de notabilidade o DOI das prisões de meu fruto, e com dificuldades para respirar devido ao capuz preto que me colocaram. Não sei quanto tempo ali fiquei; sei que nesta mesma tarde fui fotografada e fichada e estivemos muito tempo em pé”, descreve Cecília. “Como não aguentasse permanecer sem me concordar na parede, acabaram me colocando numa cadeira. Eu ouvia os gritos do Rubens Paiva sendo interrogado e de vez em quando passava alguém e batia no meu ouvido ou puxava meu cabelo ou falava muito perto: ‘Vá se preparando está ouvindo? Está chegando a sua vez…’ Parecia um pesadelo, os gritos: ‘Eu não aguento ’; ‘Eu não sei de zero’, ‘Não façam isso’ do torturado e música de vitrola com o sumo de som e de vez em quando os xingamentos e expressões vulgares que me diziam ao ouvido.”
(…)
“S mesmo indumentária foi presenciado pelo ex-recluso político Edson de Medeiros, que aguardava no térreo do prédio sua transferência para um quartel no bairro do Leblon. (…) Lembra-se perfeitamente de que os agentes colocaram uma música de Roberto Carlos – Jesus Cristo – em elevado volume, possivelmente com o objetivo de abrasar os gritos. Algum tempo depois viu de sua cubículo passarem dois recrutas puxando pelos pés um varão possante e gordo, com de centena quilos. Esse varão foi disposto na cubículo ao lado e gemia muito. Chamou também a atenção do depoente o roupa de que ele não aparentava ser um estudante, pois já era um varão de meia-idade. (…) Algumas horas depois, o depoente viu alguns agentes retirarem da cubículo um corpo inerte e totalmente enroupado.”
Há passagens ainda pesadas, porquê a que narra porquê o torturador de Rubens Paiva pulou sobre o abdômen do ex-deputado até levá-lo a uma hemorragia inevitável. São trechos duros de ler, mas necessários. Ainda Estou Aqui pode ser considerada uma leitura fácil, no sentido de fluida. Mas é ao mesmo tempo uma leitura difícil de se empreender. E necessária. Bastante necessária. Anote para o seu camarada secreto: Ainda Estou Aqui é dos melhores lançamentos de 2015.
Fonte: VEJA Meus Livros