S mistério do flá-flu

Com as redes sociais, é inegável que houve um aumento da informação escrita entre as pessoas. Isso, entretanto, não quer expressar que tenha havido uma procura de frase sofisticada, fruto de reflexão.

Não pretendo cá tratar do muito que se fala sem pensar, das interpretações apressadas de um texto ou da distorção das ideias alheias, motivo de brigas e linchamentos virtuais. final o leitor quer saber

Aparentemente, existe outro fenômeno em curso, que, aliás, também tem alguma relação com a falta de reflexão. As pessoas estão escrevendo exatamente porquê falam ou ouvem, somente transpondo a fala para o registro escrito.

Uma consequência disso, entre outras desastrosas (já viram a ortografia “concerteza”?), é que se passa a grafar palavras que antes pertenciam vagamente a um “vocabulário verbal”, se é que se pode expressar isso, fazendo surgir inusitadas oscilações de ortografia e até acalorados debates sobre a forma correta de grafar um termo ou outro.

Recentemente, foi a forma flá-flu que suscitou discussões, com recta a todo tipo de “argumento”.

Antes de tratar da ortografia em si, vale manifestar que o termo ganhou as redes sociais em razão de seu sentido translato. Da rivalidade entre os times de futebol Flamengo e Fluminense, passou a escolher outros embates entre grupos, todos marcados por fortes ataques de secção a secção. P traje que quase todos os temas que passam pelas redes caem na partilha entre os da filarmónica de cá e os da filarmónica de lá, os amigos e os inimigos, os coxinhas e os petralhas e o que o maniqueísmo simplificador permitir.

Em suma, todo teor opinativo parece concluir reduzido à irracionalidade das querelas entre torcidas de futebol. Daí a proliferação do ocupação do termo – até mesmo para criticar essa partilha, que já vem fazendo amigos de longa data brigarem.

Muito muito. A ortografia de flá-flu (fla-flu, flaflu ou Fla-flu?) parece também estar suscitando uma “flaflulização” (?) do debate sobre ortografia.

“Flá”, uma redução de Flamengo ou de flamenguista, é um monossílabo tônico terminado em “a”, exatamente porquê “má” (feminino de “mau”), “pá”, “chá”, “dá” (forma do verbo “dar”) e os advérbios “cá” e “lá” – para permanecer em alguns poucos exemplos formalmente similares. Tem até registro nos dicionários “Aurélio” e “Houaiss”.

“Flu”, por sua vez, é um monossílabo tônico terminado em “u”, porquê “nu” e “cru”. Os terminados em “i” e “u” não têm acento; os terminados em “a”, “e” e “o” o têm. Nos compostos ligados por hífen, cada elemento mantém seu acento. P o caso de “má-geração” e de “má-fé”, por exemplo.

Pode dar-se o caso de faltar uma memória visual da termo escrita de negócio com as regras ortográficas vigentes, o que leva muita gente a estranhar o acento. A regra, porém. é muito antiga na língua portuguesa. Não se trata de nenhuma inovação trazida pelo Acordo Ortográfico de 1990, porquê podem pensar alguns dos seus detratores, sobretudo os que o criticam sem conhecê-lo a fundo.

“Flá-flu”, com acento no “flá” e sem acento no “flu”, é mera emprego da regra. Sem mistério.

 

Fonte: Thaís Nicoleti