‘Romances de mistério são subestimados’, diz herdeira literária de Agatha Christie

A escritora britânica Sophie Hannah (Foto: Ben Pruchnie/Getty Images)

A escritora britânica Sophie Hannah (Foto: Ben Pruchnie/Getty Images)

Meire Kusumoto

Autora de poesias e livros de mistério, a britânica Sophie Hannah ganhou os holofotes ao se tornar a primeira – e por enquanto a única – convidada pela família de Agatha Christie a ortografar um novo romance protagonizado pelo detetive belga Hercule Poirot, que fez sua estreia no livro S Misterioso Caso de Styles, de 1920. Apesar da honraria, a autora que participou neste domingo da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) afirma que ainda existe uma grande parcela da sátira que torce o nariz para a literatura de mistério. “Há uma visão esnobe sobre o gênero porque é recreativo e muitas pessoas gostam. Alguns críticos literários não consideram que um bom livro de mistério pode ser um trabalho sério de literatura. Mas não me sinto ofendida com isso, acho exclusivamente que essas pessoas são bobas”, diz Sophie ao blog VEJA Meus Livros.

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A escritora conta que ortografar um livro novo de Poirot, Os Crimes do Monograma (tradução de Alyne Azuma, Nova Fronteira, 288 páginas, 29,90 reais), lançado no Brasil no ano pretérito, foi jocoso e também terrificante. “Foi uma honra ter sido escolhida para um livro tão importante. Ao mesmo tempo, eu sabia que o mundo inteiro estaria prestando atenção por se tratar de um romance que levaria na revestimento também o nome de Agatha Christie”, afirma. A história deixa transparecer que Sophie não só é uma grande fã da chamada “rainha do transgressão”, mas foi uma atenta observadora dos trejeitos e manias de Poirot, um personagem quase mítico da literatura detetivesca.

ebc90ebd-65a7-41a7-8b88-6b0712ed67e9Apaixonada por esse tipo de livro desde moço, a britânica se dedicou a grafar romances de solução de crimes e de mistério e conquistou certa base de fãs no Reino Unido antes de lançar sua “parceria” com Agatha. Junto com o reconhecimento por ter trazido de volta um personagem tão querido, veio a oportunidade de levar seu trabalho anterior a outros lugares do mundo. Foi o caso do Brasil, que recebeu, em junho, o romance A Vítima Perfeita (tradução Alexandre Martins, Rocco, 432 páginas, 39,50 reais). Em seus livros, porém, Sophie dá um tom dissemelhante ao que deu à novidade façanha de Poirot: são thrillers psicológicos, com tipos obscuros e, por vezes, depressivos.

Confira a entrevista de Sophie Hannah ao VEJA Meus Livros:

Antes de grafar romances de detetives a senhora publicou coletâneas de poemas. Vê um pouco de semelhante entre trova e mistério? Sempre me interessei em grafar os dois gêneros, escrevi dois ou três romances de mistério antes de publicar o meu primeiro livro de trova. São estilos diferentes, mas eles têm em generalidade a valia da estrutura. Gosto de trova formal, com métrica e rima, e de romances de mistério com pistas arranjadas. Os dois precisam ter uma estrutura correta, com cada elemento em seu lugar. Em ficção literária ou outros gêneros isso não acontece, necessariamente. Sou obcecada com estrutura, por isso me interesso pelos dois gêneros. Gosto das coisas com uma forma definida.

Tem preferência por um dos dois? No momento o meu predilecto é o romance de detetive. Eu ainda senhor trova e ainda me considero uma poeta, mas, desde 2006, quando comecei a publicar esses livros, estou focada nisso. Por enquanto, minha virilidade criativa está voltada para o mistério.

Como e quando a senhora recebeu o invitação para ortografar uma novidade façanha de Hercule Poirot? Tudo aconteceu por eventualidade. Meu agente literário estava no escritório da editora Harper Collins, que publica Agatha Christie, e ele sabia que eles eram a morada editorial responsável pela obra dela. Ele disse, sem pensar e de forma abrupta: “Sabe o que vocês deveriam fazer? Deveria invocar a minha autora, Sophie Hannah, para ortografar um novo romance de Agatha Christie”. E, por totalidade casualidade, os herdeiros de Agatha estavam, naquele mesmo momento, pensando em lançar um novo romance de Poirot. Fiquei muito feliz com a notícia, foi uma honra ter sido escolhida para grafar um livro tão importante. Ao mesmo tempo, foi um pouco terrífico, por se tratar de um livro de Agatha Christie eu sabia que o mundo inteiro estaria prestando atenção nele e eu estaria meio que sob um microscópio. Mas, principalmente, senti que seria um duelo animador.

Recebeu alguma orientação dos herdeiros de Agatha Christie? Alguém te incentivou ou proibiu de ortografar alguma coisa? Quando foi resolvido que existiria um novo livro, tivemos uma reunião sobre o que gostaríamos que acontecesse. Mathew Prichard, o neto de Agatha, me perguntou se eu gostaria de mudar o personagem de alguma forma, talvez trazê-lo para o século XXI, dar uma namorada a ele, ou mudar qualquer outro pormenor qualquer. Eu não havia pensado nisso naquele momento, mas, uma vez que eu parei para refletir, cheguei à desfecho de que não, não gostaria de mudar zero. Gostaria somente de um novo mistério do Poirot de sempre. Se você muda qualquer coisa no Poirot, ou em qualquer personagem de Agatha Christie, você acaba perdendo uma espécie de substância mágico. Eu tinha certeza de que queria que o meu Poirot fosse o mesmo da Agatha. E, quando a família ouviu isso, eles ficaram aliviados, porque imagino que era o que eles queriam também.

Como se preparou para grafar? Releu os livros? Sim, eu reli todos os livros do Poirot, foi minha prelecção de morada. Foi muito recreativo, porque Agatha Christie é minha escritora de romances de detetive favorita. Então senti que estava escrevendo sobre uma pessoa que eu conhecia muito muito. Levei muro de dez meses desde o início até o final, três ou quatro desses meses eu passei fazendo o primeiro rascunho. Depois editei e fiz pequenas mudanças.

A morte de Poirot chocou muitos fãs em 1975. Você ainda era muito novidade quando isso aconteceu. Porém, quando ficou sabendo, tarde, que o personagem morria, o que sentiu? Eu tinha quatro anos quando ele morreu e quando fiquei velha não li Cai o Pano, o livro em que isso acontece. Eu sabia que era o último, não queria ler a história em que ele morreria. Foi o único do Poirot que eu não li. Mas meu livro não o traz de volta, não queria desfazer zero que a Agatha tinha feito. Eu fiz a história se passar em 1929, porque houve uma estação, entre 1928 e 1932, que a Agatha não escreveu nenhum livro do Poirot. Então foi um período muito profíquo para se estabelecer o romance.

Como Os Crimes do Monograma foi recebido pelos fãs de Agatha Christie? Ouviu reclamações? Sempre vai possuir o fã que acha que é um sacrilégio passar um personagem para outro responsável. Há um rapaz chamado Troy, de Minnesota, Estados Unidos, que continuamente fala no Twitter comigo, dizendo que é um contraditório, questionando porquê eu fui capaz de fazer isso. Mas, no universal, eu diria que 90% dos fãs que me deram um retorno estão felizes com o roupa de possuir um novo livro de Poirot. Muitas pessoas dizem que elas amaram, as críticas nos jornais foram generosas e o que importa pra mim é que alguns me escreveram para expressar que ficaram preocupadas quando souberam que haveria um novo romance, mas, depois que leram, amaram o livro.

Os seus romances de detetive já foram comparados aos de Patricia Highsmith e, recentemente, aos de Gillian Flynn. S que acha dessa conferência? Concordo no sentido de que nós escrevemos thrillers psicológicos que são meio obscuros. Mas diria que as duas são muito diferentes entre si e eu sou muito dissemelhante delas. Acho que escrevemos dentro do mesmo gênero, mas não livros parecidos. G muito difícil para autores serem objetivos sobre seus próprios livros, logo vou falar o que acho dissemelhante entre os romances de Patricia e Gillian. Sinto que a segunda tem enredos muito intrincados e com reviravoltas e mistérios, enquanto os enredos de Patricia têm menos viradas chocantes, ela está interessada na psicologia, o desenvolvimento de seus romances é oriundo. No trabalho de Gillian dá para ver que ela é uma grande fã de Agatha Christie, o que não acontece no de Patricia.

Acha que o romance de detetive e de mistério é subestimado por críticos? Definitivamente sim. Há uma visão esnobe sobre o gênero porque é jocoso e muitas pessoas gostam. Vende muito, logo é visto porquê um gênero mercantil. Diversos críticos literários não consideram que um bom livro de mistério e delito pode ser um trabalho sério de literatura. Mas não me sinto ofendida com isso, acho exclusivamente que essas pessoas são bobas. Seria muito louco permanecer ofendida cada vez que alguém tem uma teoria estúpida, porque a maior secção das pessoas têm ideias estúpidas o tempo todo (risos). P melhor deixar pra lá.

Há outro romance de Poirot planejado? Quais são seus próximos projetos? Um novo romance de Poirot está em discussão no momento. Acho muito provável que tenha outro, sim, mas zero foi anunciado ainda. Por enquanto estou terminando o 10º livro da minha série de romances, que em inglês deve se invocar The Narrow Bed. Na Inglaterra está previsto para ser publicado em fevereiro de 2016.

 

 

 

Fonte: VEJA Meus Livros - VEJA.com