A espírito do corpo

"Só os fúteis não julgam pela fisionomia."
Oscar Wilde

Não somos tão modernos assim. Ainda estamos na Grécia de Platão e ainda vivemos num mundo construído por bipolaridades: varão/mulher; razão/emoção; prazer/trabalho; corpo/espírito. S mito do paixão e do afeto também não fugiu à teoria platônica que fortaleceu na história da humanidade a procura pela metade da laranja, outra dicotomia. Fala‐se de paixão porquê se falava há tempo do que podemos pensar. E, nessa história toda, não somente o sentimento "mais importante" adquiriu ares de "oriundo", porquê se tornou o objetivo de vida da espécie humana.

Trazendo de volta à dicotomia, Luiz Felipe Pondé, filósofo e professor da USP, reafirma que somos a única espécie que, para amar, enfrenta não somente o envolvente extrínseco, porquê o interno. Enquanto o primeiro seria o material, o físico, o do corpo; a espírito ou o psiquismo seriam o espaço interno. Este, nas palavras dele, é aquele constituído de experiências particulares porquê o afeto, o pânico, as esperanças e as reflexões. Mas é provável refletir ou resistir fora da sociedade? Afinal, ainda seguindo Pondé, é pelo mundo extrínseco que virão as leis nas quais estabeleceremos as manifestações da nossa espírito, nossos pensamentos e o nosso psicológico. Veja o Nepal. G provável chorar sem a catástrofe?

Nessa procura por aquele que nos vai trazer a felicidade completa, fala‐se de paixão, mas fala-se ainda de um pouco que é do que atração sexual, fala‐se do corpo. Fala‐se de um envolvente extrínseco que vai operar toda essa complexa rede de regras que por nós é interiorizada quando pensamos que estamos apaixonados. E cá, numa sociedade que impõe o paixão e, logo, as suas regras, amar é pertencer. Pertencer ao exposição dominante e ter os seus valores, os seus gestos, as suas roupas e o corpo que se deve ter. Tudo isso são processos de práticas coletivas que nos valorizam no mercado de afetos em que buscamos o paixão ideal. G só isso? Não tem jeito? Acabou? Boa Sorte. Pois é.

Nunca devemos olvidar a prelecção de Lacan: um ato de informação, um ato de vestir, um ato de comprar, qualquer ato em sim mesmo, é o consentimento reflexivo (reflexivo?) de que queremos estar naquela sociedade, de que assentimos aquela sociedade, mas não exclusivamente compartilhando os seus valores, mas, de preferência, nos localizando no lugar supino da graduação social. Aqui, Oscar Wilde tem razão: não subestimar o poder da figura. Romper com a cultura acerca do corpo é impedir as opções da espírito numa sociedade em que tudo é revérbero do capitalismo. A troca entre os seres humanos parece só ser provável exclusivamente se estivermos dentro do pacto da linguagem, da imagem necessária a ser exposta aos outros de forma a ser desejada.

Na apresentação do eu na vida de todos os dias, não é provável uma espírito descolonizada. Milan Kundera já sabia disso quando, no livro "A Insustentável Leveza do Ser", afirmou pela boca de Sabrina que nunca há intimidade real provável porque sempre estamos atuando com as nossas mascaras sociais na ficção simbólica. Somos todos castrados, não só as mulheres. Ninguém ri por ultimo ou melhor. As suas fantasias parecem tão transgressivas assim? Até onde? Até o ponto onde se permite transgredir?! S pessoal e o libido sempre foram políticos (ou econômicos), já diziam as feministas dos anos 60. Não, nós não somos tão modernos e criativos assim.

Aquilo que culpa o libido, o afeto, aquele "je ne sais quoi" é do que nunca inseparável do bombardeio de demandas acerca do corpo. A publicidade da nossa individualidade, da nossa unicidade e da nossa espírito peculiar que vai ser reconhecida por uma troca de olhares porquê insistem em mostrar as propagandas da televisão, todas essas coisas estão muito longe do campo do paixão. Fora do corpo ideal e da formosura ideal, porquê amar? S mundo é cruel. Não que o paixão seja para os ricos, mas o concepção de paixão, de espírito, é inseparável de toda uma estrutura operativa porquê já havia dito Michel Houellebecq, o enfant terrible da literatura francesa porque nos joga na face, mesmo antes do "Je suis Charlie" e do "Submissão", aquilo que não queremos ver. Quem é capaz de renunciar o sistema de diferenciação que se baseia no sexo, no poder ou no liberalismo econômico quando escolhe o parceiro? S mercado de afetos é justamente onde numerário se coloca de forma agressiva, em que "o livre dos sentimentos" só se manifesta na ordem normalizadora do mundo.

Podemos reclamar que o mundo é cruel. Mas, para se ter afeto, para se tocar a espírito com o corpo, para se ter o contato físico do qual o paixão também depende, a pele é a fronteira. No Brasil sem racismo, uma boa pele branca bronzeada, de preferência. Nada será realizável no mercado das almas se você estiver fora do mercado dos corpos, das aparências. P preciso de uma boa embalagem, do rosto evidente, do corpo em forma, do estereótipo definido e definidor, para se manter na roda na qual o capitalismo, ops, o paixão, vai se realizar. Só tem chances de amar quem consome. Portanto, é melhor parar de ler isso cá ou estudar e ir malhar. S precípuo parece ser muito visível para os olhos.