Lena Dunham, de ‘Girls’, faz de biografia um selfie literário

Mariana Zylberkan
Lena Dunham pode ser considerada uma das revelações da era de ouro que vem vivendo a TV americana. Na esteira das muitas séries de sucesso surgidas nos últimos anos, a criadora da premiada Girls, da HBO, contribuiu para que a televisão superasse o cinema porquê plataforma lançadora de novidades. Ao retratar sem filtros a veras da juventude atual, que luta para deixar a sua marca e buscar independência apesar da grande crise econômica em que o mundo se encontra, Lena arrebatou fãs, elogios da sátira e prêmios, incluindo dois Globos de Ouro. Sua autobiografia, Não Sou uma Dessas - Uma Garota Conta Tudo o que Aprendeu (Not That Kind of a Girl, Intrínseca, 304 páginas, 29,90 reais), portanto, foi lançada sob altas expectativas — é, finalmente, a sua primeira produção depois a série de sucesso na TV. Ao usar o mesmo despudor com que se deixa filmar nua em Girls, apesar do corpo fora dos padrões hollywoodianos, para racontar “tudo o que aprendeu”, porquê promete o subtítulo do livro, a atriz e roteirista se afasta do papel de voz de sua geração, adquirido com o estouro da produção da HBO, para testar e muitas vezes ultrapassar os limites da superexposição da intimidade. A autobiografia de Lena Dunham eleva à enésima potência o atual exibicionismo do dedo e soa porquê um repetitivo selfie literário.
Com uma narrativa hábil e muito-humorada, a roteirista vaga entre passagens íntimas, porquê as suas primeiras experiências sexuais, contadas em detalhes. Entra nessa categoria o estupro que ela diz ter sofrido em seguida misturar álcool, ansiolíticos e cocaína em uma sarau da faculdade – passagem que rendeu uma investigação policial seguida de um processo por danos morais pelo suposto responsável do injúria e a obrigou a suprimir o trecho em novas edições da obra, nos Estados Unidos. Há também capítulos inteiros dedicados ao cardápio da dieta que ela seguiu para perder peso e listas com cartas imaginárias para desafetos que Lena nunca enviou.
Nesses altos e baixos entre sensibilidade extrema e superficialidade descartável, a autobiografia tem um paisagem que se mantém estável, além da intimidade escancarada porquê marca registrada: a autoafirmação feminista da autora. Seja para responder de forma inteligente a quem lhe questiona por nascer sem roupa na TV ou para indicar o machismo ainda presente nos bastidores da TV e do cinema, mesmo que sem a descrição frenética com que narra as suas relações pessoais, Lena ressalta a sua exigência de mulher em procura de paridade com o sexo oposto. Lena deixa evidente que ainda há um longo caminho a percorrer para as mulheres ao fazer paralelos, por exemplo, entre o espanto causado pelas cenas em que aparece nua em Girls com o choque provocado pelos autorretratos que sua mãe, a fotógrafa Laurie Simmons, fez sem roupa nos anos 1970.
A influência dos pais, aliás, permeia a maioria das histórias, desde a puerícia até sua consolidação porquê autora de TV de sucesso. A trajetória individual do par Laurie Simmons e Carroll Dunham, um artista plástico de renome na cena cultural novidade-iorquina, é muitas vezes emprestada pela autora para narrar a própria história, o que rende passagens interessantes e um refresco do egocentrismo sem propósito da autora. Exemplo disso é o capítulo devotado às emoções e descobertas que a sua mãe viveu nos acampamentos frequentados na juvenilidade, experiência que a autora tenta reimprimir em viagens semelhantes, sem sucesso.
A submissão emocional da família é refletida também pela relação com a mana novidade, a atriz Grace Dunham, que foi mira de um burburinho despertado pelo lançamento do livro. Ao lembrar das férias na praia, quando ainda era garoto, Lena conta que examinou a vagina da mana quando ela era um bebê, o que gerou reações exaltadas. Setores conservadores da sociedade americana a acusaram de ter abusado sexualmente de Grace e Lena se viu obrigada a rejeitar publicamente as acusações.
As experiências relatadas pela criadora de Girls em sua autobiografia, com exceção do estupro, certamente são ecoadas na trajetória da maioria das garotas de 28 anos que cresceram em uma cidade grande porquê Nova York e assumiram riscos emocionais na procura pela própria identidade. Difícil alguém por volta dos 30 anos não se identificar. Ainda que Lena Dunham não seja uma dessas garotas.
Fonte: VEJA Meus Livros - VEJA.com