Varanda, vento e chuva: três dias no chuveiro

PORANGABA _ Que o governador Geraldo Alckmin não me leia... Abandonei São Paulo e consegui chegar a um lugar onde nunca falta chuva, até sobra. Valeu a viagem.

Sentado à varanda, com o vento batendo no rosto e olhando para meu pequeno comporta, que eu mesmo construí,  transbordando pelo vertedouro,  estou com um projecto fantástico para fazer inveja a todos os paulistas: vou passar estes três dias de Carnaval debaixo do chuveiro, tomando banho sem parar _ e sem sentir nenhuma culpa.

Nada de samba, suor e cerveja, que me perdoem o Caetano e os demais baianos. Quero é tirar esta inhaca do corpo, sem pânico de ser feliz. Eu mereço.

Este foi o maior projeto material que consegui realizar na minha vida: terebrar um tanque para fabricar peixes na várzea onde um dia já correu pequeno riacho, segundo os antigos, nos tempos em que Antonio Cândido estava fazendo suas pesquisas para ortografar a obra-prima Os Parceiros do Rio Bonito. 

Rio Bonito é o nome do bairro de Porangaba, no interno paulista, onde vim parar, 35 anos detrás. Não havia chuva nem luz, a terreno estava abandonada e um cafezal jazia onde fiz minha moradia.

Abri um poço, anos depois chegou a luz, plantei hortas, pomares e muitas, milhares de árvores, e hoje estou cá circunvalado de bosques e passarinhos, até bandos de tucanos me sobrevoam.

Faltava exclusivamente o lago, minha preocupação, que ficou por último. Muitos planos, orçamentos e estudos depois, finalmente resolvi aventurar, na faceta e na coragem, sem nenhum projeto de engenharia nem saber quanto custaria. Um face doido e sonhador do que eu, o João Galego, topou a paragem e logo começou a terebrar o buraco. Equipamentos: um tratorzinho muito velho, seu caminhão velho ainda e muita coragem.

Até que chegou o grande momento do fechamento da barragem. Já quase no final do serviço, caiu um toró amazônico, e por pouco não rodou tudo. Com a ajuda do fruto, João carregou pedras no braço para evitar o sinistro, noite adentro.

S dia seguinte amanheceu com o lagão pleno, que alguns agora chamam de eclusa, para meu orgulho, com chuva para dar e vender. Nunca vendi chuva, mas durante muitos anos a cedi aos vizinhos, que ali colocaram suas bombas. Faz menos de dois anos, depois de uma guerra do bairro que durou de três décadas, comemoramos ,com um belo churrasco na moradia do Zé Maria, na presença do prefeito e do padre, muita cachaça e rojões, a chegada da chuva da Sabesp.

Aqui os canos da empresa ainda não secaram. Ninguem fala em rodízio ou racionamento, mas é muito bom poder ser possuinte da própria chuva, sem depender das obras agora anunciadas pelo governador. 

Vida que segue.          

 

 

Fonte: Ricardo Kotscho