Os riscos de “blecaute alcoólico” entre os jovens
Períodos como o Carnaval, que será comemorado em 17 de fevereiro, são marcados pela maior aceitação social do uso do álcool, tornando consumidores, em especial os jovens, expostos aos prejuízos do uso excessivo de bebidas alcoólicas.
Por essa razão, o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), organização não governamental que se destaca como uma das principais fontes no país sobre o tema, divulga estudo que aponta o aumento de lapsos de memória relacionados ao álcool em adolescentes ingleses com o avançar da idade.
Lapso de memória
Um evento adverso comum ao uso abusivo de álcool é lapso de memória ou blecaute alcóolico (BA), definido como a incapacidade de lembrar-se de fragmentos ou períodos inteiros de eventos ocorridos enquanto se está acordado e bebendo. De acordo com pesquisas, estima-se que ao menos 50% dos adultos bebedores já tiveram algum episódio de blecaute, assim como 80% dos indivíduos com transtornos por uso de álcool, sendo um critério cada vez avaliado em pesquisas sobre o alcoolismo. Sabe-se também, que a maior ingestão de álcool (quantidade e frequência) está relacionada a maiores chances de ocorrência de BA.
Especialistas afirmam que a predisposição para o episódio de blecaute é parcialmente oriunda de fatores genéticos (cerca de 50% da vulnerabildiade para o fenômeno pode ser herdada), se manifestando através de fenótipos, como por exemplo o de baixa resposta ao álcool – o indivíduo que necessita comparativamente de doses de álcool que outros para atingir determinado grau de intoxicação.
Outras características relacionadas ao BA são: sexo masculino, comportamento psicológico externalizante (como impulsividade e busca de sensações), além de convívio com amigos que bebem nocivamente ou usam drogas.
Beber frequente e pesado
Estudo longitudinal anterior indicou que beber frequente e pesado já no início da pesquisa se associa com episódios de BA, além de maior propensão aos transtornos por uso de álcool. Outro estudo verificou que nos casos onde o BA ocorreu já no início do acompanhamento, a chance de reincidir em novos episódios no futuro foi de 68%.
O BA também esteve associado a: início do beber precoce, ter pais bebedores e hábito de fumar. Ainda, outra pesquisa demonstrou que indivíduos com uso pesado de álcool e que apresentaram 6 ou episódios de BA possuem risco dobrado de necessitarem de assistência médica em pronto atendimento pelo consumo de álcool.
Estudo
O presente estudo acompanhou 1402 adolescentes nascidos nos anos de 1991 e 1992 em Bristol, na Inglaterra, que aos 15 anos já haviam consumido pelo menos uma dose de bebida alcoólica, que foram entrevistados ao menos duas vezes entre 15 e 19 anos com relação ao consumo de álcool (quantidade, frequência e efeitos) e frequência de episódios de BA.
Foi observado que aos 15 anos quase 30% dos indivíduos já haviam vivenciado ao menos um episódio de blecaute alcóolico, 58% aos 16 anos, 70% aos 18 anos, alcançando 75% dos indivíduos com 19 anos. Além disso, verificou-se que a quantidade de doses de álcool consumida aumentou quase 70% entre os 15 e 19 anos, o que leva à conclusão de que frequência do episódio tende a aumentar com o avanço da idade e também de acordo com a progressão da intensidade do consumo.
Os participantes foram classificados em quatro grupos: sem episódio de BA (5%), rápido aumento de BA ao longo dos anos (30%), aumento gradual de BA ao longo dos anos (45%) e BA persistente (21%).
Quando comparados, o primeiro grupo (sem BA) era composto por indivíduos que consumiam menos álcool (quantidade e frequência) e tinham perfil de alta resposta ao álcool (sentem os efeitos do álcool por dose consumida) no início das avaliações em relação às demais. Já os indivíduos do grupo com BA persistente apresentaram tendência para maiores frequências e quantidades de uso de álcool, baixa resposta ao álcool e uso de outras drogas.
A frequência de BA encontrada no presente estudo (75% aos 19 anos) foi maior que os 50% registrados em estudos americanos para população adulta geral (sem diferenciação por idade) e também em universitários.
Uma hipótese que poderia ser feita está ligada ao início precoce adotado como critério de inclusão do estudo para a amostra (jovens de 15 anos), considerado preditor de problemas relacionados ao uso de álcool no futuro, o que enfatiza a necessidade de medidas educativas e instrutivas específicas para esse público.
Atenção redobrada
Os autores destacam que médicos e pais devem estar atentos ao fato de que, para a maioria dos jovens, os eventos de BA não são isolados e sua ocorrência é preditiva da trajetória futura de uso nocivo de álcool.
