Super-humanos? Hoje só amanhã – 10/02/2019 – Reinaldo José Lopes


A julgar pelo que algumas pessoas andam falando (entre elas, gente muito influente e/ou enxurrada da grana), a subida de “super-humanos” geneticamente modificados, o próximo estágio da evolução da nossa espécie, é só questão de tempo, e talvez já esteja nos aguardando na próxima esquina.

Só consigo responder a essa teoria tomando de empréstimo um dos bordões de José Simão, patrimônio histórico do humorismo brasílico e desta Folha: hoje só amanhã. Falar é fácil, criancice. Quero ver é fazerem mesmo os X-Men da vida real.

Veja, não estou pedindo um careca capaz de ler pensamentos ou uma ruiva fantástico que mexe objetos com a mente. Se alguém me dissesse que sabe porquê produzir no tubo de experimento um bebê com QI de 200 (a média da população é 100), ou logo um velocista que corra os 100 metros rasos em 8 segundos, eu já ficaria convicto.

“Spoiler”: não vai intercorrer tão já. Talvez não aconteça nunca ou, caso alguma coisa assim se materialize, os custos serão tão ou mais altos que os benefícios.

É, pode ser que eu esteja sendo peremptório demais. Enfim, não faz muito tempo, em novembro de 2018, o pesquisador chinês He Jiankui anunciou ter usado a revolucionária técnica de edição de DNA conhecida porquê Crispr (pronuncia-se “crísper”) para gerar bebês (por enquanto, duas meninas) que carregam genes destinados a lhes proteger contra a ação do vírus HIV.

Jiankui agiu, ao que tudo indica, nas brechas do sistema regulatório relativamente permissivo da China, e cientistas de seu país e do mundo todo o condenaram pelo ato – ele chegou a perder o serviço de professor universitário. Mas o negócio funciona, não funciona? Não seria uma notícia alvissareira para a aurora dos superbebês?

Seria se a gente fizesse a mais vaga teoria de porquê usar a Crispr para mexer no que realmente importa.

OK, “o que realmente importa” é um termo vago. Evidente que é interessante ser resistente ao HIV, mas estamos falando de uma particularidade que ocorre naturalmente, por meio de mutações espontâneas, nas células de milhões de pessoas. E que depende de mudanças num único gene – entre dezenas de milhares dos que compõem o seu, o meu, o nosso DNA.

E quanto a lucidez, habilidade atlética, talento músico ou mesmo formosura? Essas coisas têm em generalidade o trajo de que dependem da interação complicada de milhares de genes, muitos dos quais com funções, efeitos e peso no resultado final que hoje são desconhecidos.

Suponhamos, porém, que boa secção dessa ignorância atual seja elucidada e que, de quebra, seja provável usar a Crispr para mexer em milhares de genes em paralelo –coisa que hoje, vale repetir, não é viável. Desprezemos também a interação dos genes com o envolvente e vamos supor que a edição de DNA já é mais de meio caminho percorrido para o resultado que se deseja obter. Problema resolvido?

Não, porque genes muito raramente atuam sozinhos sobre uma particularidade desejada, deixando o resto do organização incólume. A proteína cuja receita está contida no gene X e que tem o efeito Y sobre o sistema nervoso também pode desencadear o efeito Z sobre as células do fígado, digamos – e pode ser um efeito zero interessante para a saúde, ou a longevidade, ou a fertilidade do sujeito.

Variantes de genes, em outras palavras, sempre têm tanto custos quanto benefícios, e o mesmo vale para as características que eles influenciam. Não existe almoço gratuito em biotecnologia futurista. 



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