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Para filósofo, tecnologia do século 21 testará relevância dos seres humanos – 11/11/2019



A lucidez sintético irá instituir nosso horizonte mas, até 2050, muitas revoluções devem sobrevir —e nós precisamos estar preparados para que não sejam catastróficas nem tirem a relevância do ser humano. Foi esse cenário que Yuval Harari, historiador e filósofo israelense, apresentou na quinta-feira (7) no fechamento da 5ª Semana de Inovação, realizada pela Escola de Gestão Pública (Enap), no Instituto Serzedelo Correa, em Brasília.

Responsável da trilogia best seller ‘Sapiens’, ‘Homo Deus’ e ’21 Lições para o Século 21′ e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, Harari é um dos principais pensadores contemporâneos sobre o impacto das novas tecnologias no sorte da humanidade e do planeta.

“Cabe aos governos proteger os cidadãos dos perigos da revolução tecnológica, dos choques econômicos e políticos e das ameaças existenciais ao varão. Para isso, deve possuir uma cooperação global”, aponta.

A era da irrelevância

Segundo ele, enquanto a maior luta do século 20 foi contra a exploração, a do século 21 será “contra a irrelevância”.

Explicando: a lucidez sintético e a robótica já estão mudando as profissões tradicionais, acabando com algumas e criando novas. Assim, precisaremos nos reinventar e aprender coisas novas rapidamente – uma resiliência que pode ser muito estressante. Essa capacidade vai instaurar quem será ou não relevante no mundo.

Ninguém sabe porquê será o mercado de trabalho em 2050. Só se sabe que vai ser completamente dissemelhante do que é hoje. Mas não teremos alguns anos para nos apropriar, essa revolução já está em curso. E terá efeito cascata: os novos trabalhos que estão surgindo também vão mudar todo. Teremos de nos reinventar não uma vez na vida, mas várias, a cada dez praticamente. Também não sabemos se haverá empregos suficientes para todos
Yuval Harari

Esse novo cenário poderá fabricar uma tamanho de pessoas sem utilidade do ponto de vista econômico.

“Se reinventar pode ser fácil para um jovem, mas não para alguém de 40 anos que fez a mesma coisa a vida toda. Porquê um motorista de caminhão, que não será mais necessário em seguida os veículos autônomos, vai conseguir se tornar professor de ioga ou desenvolvedor de software ou outra coisa que seja necessária?”, acredita o filósofo.

Harari acredita que é papel dos governos ajudar as pessoas nesses processos de transição, para que elas possam encontrar novas vocações e trabalhos, oferecendo treinamentos, benefícios e pedestal psicológico. “Se isso falhar, o resultado será uma enorme concentração, não só de riquezas, mas de poder, nas mãos de uma escol.”

Essa concentração de renda pode resultar na sociedade mais desigual da nossa história.

“Hoje, milhões de pessoas têm sua renda porquê taxistas, motoristas de ônibus etc. Daqui a 20 ou 30 anos, toda essa riqueza será propriedade de bilionários donos das empresas (…). A Uber, por exemplo, não terá mais de remunerar zero para motoristas, pois os carros serão autônomos. Também não haverá riscos de greves. E, se o bilionário quiser, ele poderia apoucar um botão e destruir tudo, terminar com o mercado de transporte”, argumenta.

Os países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, porquê o Brasil, devem ser os mais afetados. “A automação vai reduzir a mão de obra sem qualificação, mesmo que ela seja barata. Haverá muitos novos trabalhos para engenheiros de software em São Francisco e Pequim, mas muito menos para costureiros ou motoristas do terceiro mundo”, exemplifica Harari.

O poder e riqueza do novo mundo já está nos hubs tecnológicos, porquê Estados Unidos e China. E os dados serão a material-prima da revolução da lucidez sintético. “Os países que não agirem agora podem perder o controle do próprio horizonte, virar ‘colônias de dados’ em um novo tipo de imperialismo”, prevê o filósofo.

Algoritmos cada vez mais precisos poderão tomar decisões as quais não teremos controle - Juhari Muhade/Getty Images

Algoritmos cada vez mais precisos poderão tomar decisões as quais não teremos controle

Imagem: Juhari Muhade/Getty Images

O conta do horizonte

Harari apresentou uma equação que sumariza as ameaças que as novas tecnologias podem trazer no século 21: B (biologia) x C (computação) x D (dados) = AHH (habilidade de hackear humanos, na sigla em inglês).

Segundo ele, os governos terão poder de computação, sensores biométricos e dados suficientes para “hackear” as pessoas. “Serão criados algoritmos que entendem você melhor do que você mesmo se entende. Eles vão prever nossos sentimentos e decisões, e, portando, conseguirão manipular nossos desejos e até deliberar por nós.”

“Talvez eu ainda não saiba que sou gay, mas a Coca-Cola já sabe. Logo, da próxima vez que me mostrar um mercantil, vai colocar um rapaz sem camisa e não uma pequena de biquíni. Aí eu vou na lanchonete e compro uma Coca e não uma Pepsi sem saber porque. Isso vale milhões”, alerta Harari, que se descobriu gay exclusivamente aos 21 anos de idade —um algoritmo provavelmente teria revelado isso antes.

E cada vez mais decisões são tomadas por lucidez sintético – ao pedirmos um empréstimo no banco, por exemplo, é ela quem decide se podemos pegar aquele moeda ou não. “Isso é perigoso, estamos perdendo o controle sobre nossas vidas. E há muitos vieses nos algoritmos que desconhecemos. Há até alguns que, sem querer, são racistas, simplesmente porque foram desenvolvidos sem considerar pessoas negras”, exemplifica Harari.

Com dados suficientes, é provável controlar um país sem enviar exércitos. O resultado pode ser a geração dos piores regimes totalitários que já existiram

Por isso, é precípuo que os governos criem regras para novas tecnologias, uma legislação que proteja seus cidadãos – do próprio governo, dos governos de outros países e das grandes empresas. Quem é possuidor dos nossos dados pessoais? Do meu histórico de vida? Das minhas informações médicas?

Ele prega uma solução global, já que a ameaço é global. “Isso só é provável se construirmos pontes em vez de muros, construirmos crédito”. No entanto, parecemos estar na direção oposta neste momento.

“Ondas nacionalistas em diversos governos pelo mundo apontam a globalização porquê inimigo. Mas nacionalismo não é o oposto de globalização. Esse é um erro muito sério. Nacionalismo não significa desabitar tradições, perfurar fronteiras, odiar estrangeiros, mas sim amar seus compatriotas.”

O Brasil, por exemplo, pode se coligar a outros países em situação parecida. “O Brasil sozinho não conseguirá resistir aos Estados Unidos, China, ao Google, ao Alibaba. Mas se se juntar com a Argentina, o Chile, a África do Sul, tem mais chances de proteger seus dados e participar da revolução da lucidez sintético”, acredita o israelense.

Cena da série "Westworld", em que robôs que imitam humanos com perfeição - Divulgação

Cena da série “Westworld”, em que robôs que imitam humanos com sublimidade

Imagem: Divulgação

Distopia armamentista

A disrupção tecnológica do século 21 não será somente sobre economia e política, ameaçando a silêncio global, mas também sobre biologia, alterando o sentido de humanidade e as regras mais básicas da vida. Uma espécie de “super-humanos” poderá surgir.

“Teremos habilidade para gerar as primeiras formas de vida inorgânicas. Governos, corporações e exércitos podem desenvolver seres em que prevaleça a lucidez e a disciplina, negando as características mais humanas porquê condolência, sensibilidade e espiritualidade”, teme Harari.

Segundo ele, essa fantasia tecnológica pode virar um terrível pesadelo, culminando em uma piora da nossa espécie ou até no desaparecimento dela. Aliás, pode ser iniciada uma novidade corrida armamentista, a mais perigosa até hoje.

“Armas automáticas, robôs assassinos… acho que ninguém quer fabricar isso, mas talvez o faça pois teme que outro país já tenha essa tecnologia. Se permitimos isso, não importa quem vai lucrar essa concorrência, o único perdedor será a raça humana”, lamenta Harari.

Mas esse cenário catastrófico é exclusivamente uma possibilidade, não uma profecia. O filósofo acredita que desafios nunca vistos antes exigem novas atitudes. “Os países podem concordar em diminuir certos desenvolvimentos tecnológicos em nome de parar o aquecimento global ou de evitar guerras. Com as mesmas ferramentas, é provável edificar as mais diferentes sociedades; basta confrontar as duas Coreias”.

“Podemos fabricar o firmamento o inferno com a lucidez sintético. (…) Logo é trabalho dos historiadores, filósofos e críticos sociais, porquê eu, alertar as pessoas sobre os piores cenários”, concluiu Harari. A pergunta mais importante que podemos fazer hoje é: porquê usar essas tecnologias de forma inteligente e segura?

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