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Mesocarpo no prato, farinha na cuia



José Nêumanne (publicado no Blog do Nêumanne)

Na sexta-feira passada, 26 de abril, tornou-se público o relatório do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federalista (STF), sobre o trabalho da Operação Lava Jato. Labareda a atenção no texto do relator a constatação de que a procuradora-universal da República, Raquel Dodge, a trava. Entre 2015 e 2019, informa o relatório de Fachin, ali foram homologados 110 acordos de colaboração premiada. Exclusivamente um foi feito na gestão Dodge, iniciada em setembro de 2017. Nele o lobista Jorge Luz diz ter repassado propinas ao senador Renan Calheiros (MDB-AL) e seu grupo político. “A homologação foi feita por Fachin em dezembro de 2018”, contou o colega Josias de Souza em seu blog no UOL, na nota Dodge freou Lava Jato, relata STF. O relatório foi entregue aos pesquisadores Michael Mohallem, Bruno Brandão e Ninna de Araújo, da Escola de Recta da Instalação Getúlio Vargas (FGV), e, segundo noticiou o site do Supremo, será publicado na publicação sobre história da operação.

Poderia ser o caso de acusar a excelentíssima senhora chefona do Ministério Público Federalista (MPF), que ganhou relevância enorme desde a Constituição de 1988, a ponto de despertar a ira de juízes do STF, porquê o colega de Fachin, embora não se possa expressar que sejam alinhados, Gilmar Mendes. Ela assumiu o poderoso posto no lugar de Rodrigo Janot, espargido por sua militância petista e pela autoria intelectual da arapuca em que caiu o ex-presidente Michel Temer no famoso teretetê de pé de ouvido que manteve na garagem do Jaburu com o marchante goiano Joesley Batista. A divulgação da gravação do papinho de porão tornou o ex-presidente emedebista um típico pato manco, definição que ianques dão a encarregado político que mantém o incumbência, mas deixa de treinar todo o poder que leste lhe delega. Mendes, porquê é público e notório, trocava figurinhas com Temer na despensa presidencial ou no jato transatlântico da Presidência da República. E foi por em tais encontros que indicou a citada Dodge. Esta foi nomeada e esperava-se que poupasse tanto paraninfo quanto patrão. No entanto, ela não agiu porquê se lhes devesse o belo tarefa pelo menos num caso, que especificamente dizia reverência ao logo presidente que a escolheu em seguida consultar a lista tríplice encaminhada ao gerente do governo.

Antes, seu predecessor, Rodrigo Janot, mandou a Polícia Federalista (PF) penetrar dois inquéritos contra Temer, um deles sob a arguição de ter recebido propinas à guisa de doações eleitorais de empresas beneficiadas no decreto de concessões do Porto de Santos. Sob pressão do relator do caso, Luís Roberto Barroso, madame fez o que era esperado: deu-lhe prosseguimento.

O caso da Lava Jato, porém, é mais complicado. A operação dos procuradores de Curitiba, coordenada pelo procurador Deltan Dallagnol e antes chefiada pelo juiz Sergio Moro, substituído por Luiz Antônio Bonat para ocupar o Ministério da Justiça, é muito popular e ela usou todo o charme provável de seus olhos claros e sua fala plácida para evitar que os implacáveis perseguidores da verdade tivessem entrada à sua indiferença ao trabalho aclamado dos colegas, perseguidos com insultos e acusações pelo próprio patrono. A seis meses de fechar seu procuração, mas, o que ela tentou esconder em belas e muito-intencionadas perorações veio à tona.

É que Fachin, seu colega de ofício de origem, mas diligente nos processos que relata porquê ministro do STF, recorreu a informações matemáticas para dimensionar sem dó nem jeito a trava imposta pela permanente colega de sessões. Além do conciliação citado supra, Raquel Dodge submeteu à avaliação do Supremo, em janeiro, outro pacto de colaboração, firmado dessa vez com o ex-presidente da OAS, Léo Pinho. Aquele mesmo, preclaro leitor, célebre por ter pretérito dois anos sob negociação, por pretexto da citação do nome do ministro do STF e seu atual presidente, Dias Toffoli. Mas a peça ainda não foi homologada. “Em 2019, não houve homologação”, esclareceu o minucioso Fachin.

Depois do documento produzido pelo relator com dados e números, não dá mais para mascarar o freio que ela impôs à operação policial e judicial que levou à prisão um dos empresários mais ricos do País e o mais popular ex-presidente da República: “Num balanço que fizera de sua gestão em outubro do ano pretérito, Dodge contabilizava 46 denúncias, mas exclusivamente quatro se referiam ao maior escândalo de depravação do país. Certos casos cobravam reação”. Os assessores de madame atribuem sua freada a prudência e moderação. Mas os colegas da atingida Lava Jato discordam de maneira furiosa dessa tradução.

Não podia ser dissemelhante. Desde as manifestações de rua pelo impeachment de Dilma, em 2016, os policiais, procuradores e juízes da operação são saudados pelo povo porquê se fossem uma espécie do que nossos ancestrais chamavam de “ai-jesus”. Em pessoal, o juiz que a comandava, Sergio Moro, e o coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol. Quando os maiorais da empreita e da pistolagem política caíram, abatidos por delações premiadas, denunciados e processados passaram a usar artilharia pesada para derribar os “aventureiros” da devassa.

Com o maior dos empreiteiros, Marcelo Odebrecht, e o mais popular dos chefões da política, Lula, detrás das grades. os suspeitos juntaram-se aos que ainda não tinham aparecido no noticiário, mas temiam que, mais dia, menos dia, pudessem dar de face com um federalista à porta de moradia cedinho. E o combate aos intrusos passou a ser planejado para não deixar ponto sem nó nem espaço vazio. Aí foi que a porca torceu o rabo e a vaca foi para o brejo. Antes de atolamento, salve-se quem puder e quem avisa camarada é.

Com a vitória, inesperada no primícias do ano pretérito, do candidato à Presidência da República sem rabo recluso à mostra, Jair Bolsonaro, os ameaçados pela guilhotina deram as mãos aos companheiros ao lado, no Poder Legislativo, e aos juristas dos coquetéis no lago abrigados pelos chefões de antanho nos píncaros do Judiciário. Enquanto os altos tribunais davam habeas corpus com impressionante exuberância, as raposas dos galinheiros devassados passaram a planejar o contra-ataque. Raquel Dodge cumpriu até agora com galhardia o seu papel na farsa. Terá até setembro, quando será substituída, é o que se espera, para continuar a tarefa.

No Poder Legislativo o combate tem prazo mais longo. O presidente Jair Bolsonaro, ungido pelo voto, levou o herói popular Sergio Moro para chefiar o combate à devassidão e ao transgressão organizado no Ministério da Justiça e da Segurança Pública. Cabe aos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, ambos do DEM, prosseguir com as tarefas nas quais foram abatidos em meio à liça os emedebistas Romero Jucá, pelo sufragista de Roraima, e Renan Calheiros, pelos pares do Senado.

Maia tem feito o provável para repetir a façanha da noite dos ferros torcidos, na qual a Câmara virou pelo avesso as 10 Medidas contra a Devassidão, da lavra da Lava Jato. E entregou a bandeira de Sergio Moro ─ o pacote anticrime ─ para seus mastins mastigarem. O ministro estrilou, foi chamado de empregadinho de Bolsonaro e apelou para o Senado, na cumbuca emborcada de Niemeyer, ao lado. Enquanto a tropa de Maia intromete o pacote de segurança pública do ministro do STF Alexandre de Moraes para desvirtuar o texto original, a senadora Eliziane Gama deu ingressão de seu teor no debate do Senado. A teoria é inventar um jeito de dar um drible da vaca na patota da Câmara, no prato sem pão na mesa.

Em ambas as Casas há assustados com grande capacidade de influenciar pessoas e fazer aliados. Finalmente, os dois presidentes são suspeitos: o da Câmara é o Botafogo da Odebrecht e o do Senado tem rolo investigado no STF. Não faltam indícios, pois, de que também no primeiro há percalços para a aprovação do pacote anticrime, que, pela lógica, seria a prioridade zero (antes de um) do governo federalista. A revista Crusoé, a mesma que revelou que o presidente do Supremo tem codinome no propinoduto da empreiteira teutobaiana (“camarada do colega de meu pai”, apud Marcelo Bahia Odebrecht), revelou que aliados de Alcolumbre dão porquê certa a retirada de alguns pontos da proposta. E “um dos itens do pacote que senadores querem excluir é o que cria a figura do informante do muito”. Finalmente na Realpolitik de mesocarpo no prato, farinha na cuia, qualquer elemento do muito sempre será tratado porquê inimigo figadal. E haja fígado!



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